“Foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para me espancar – a fim de que não me encha de soberba. (2 Cor 12,7)

Esse detalhe oferecido pelo Apóstolo Paulo é uma preciosa informação para nossas vidas cristãs. Devemos esclarecer, antes de tudo, que a intenção do Apóstolo em suas cartas é, acima de tudo, de natureza teológica. A dimensão antropológica também está presente, mesmo que venha em segundo plano e se manifeste de forma diversificada em seus escritos, como afirma um eminente especialista em Paulo: “Trata-se de uma antropologia na confluência da cultura judaica e helenística” 1.

Com efeito, Paulo nos apresenta sua experiência de um “sofrimento pedagógico” permitido por Deus. Essa pedagogia contém, ao menos, três aspectos importantes:

  1. A experiência mística: o Apóstolo compartilha sua experiência autobiográfica no contexto de um testemunho de vida mística. De fato, é nesse contexto de experiência espiritual de união a Deus que Paulo situa o tema de seu espinho na carne.
  2. A experiência antropológica: descreve Paulo como estando “em” seu corpo e não “fora” dele.
  3. A experiência de sua leitura binária: “quando sou fraco, então é que sou forte” faz parte das fórmulas-binômias paulinas, assim como “carne-espírito; loucura-sabedoria; morte-vida; lei-fé”.

O que é um espinho na carne?

Um espinho na carne é um corpo estranho (geralmente discreto e pequeno), que se introduziu acidentalmente sob a pele (pode ser uma lasca de madeira, de metal ou de vidro). Quando não é removido pode causar dor e provocar uma inflamação local. Mas, sobretudo, o incômodo de um espinho é a dor constante e irritante que ele provoca.

No caso do Apóstolo Paulo, a metáfora utilizada, traduzida como “espinho” a partir do grego “skólops” (“skólops tē sarki”, σκόλοψ τῇ σαρκί é espinho na carne), evoca algo maior, uma espécie de estaca, um pedaço grande de madeira afiado. Segundo o exegeta Daniel Marguerat 2, a experiência espiritual se inscreve na carne do Apóstolo; é uma carne fragilizada. De fato, a metáfora do “espinho na carne” sugere uma doença física penosa, cuja natureza exata nos escapa, mas que devia ser conhecida pelos destinatários de Paulo.

Pode-se imaginar uma doença física, de identidade incerta. Os estudiosos de Paulo (teólogos, exegetas e historiadores) tendem a supor que se tratava de um problema ocular (uma oftalmia 3), que obrigou o Apóstolo
a buscar cuidados entre os irmãos da Galácia (cf. Gl 4,13-15). Mas também pode ter sido uma doença psíquica ou psicológica (ansiedades, medos, angústias, paralisias interiores…). Inúmeras hipóteses foram formuladas sobre a natureza dessa aflição (epilepsia, crises de malária ou preocupações pastorais…). Alguns exegetas tentaram encontrar em outras cartas de Paulo algumas pistas para identificar o sofrimento físico ou espiritual que ele enfrentava.

Nas Escrituras, a palavra “espinho” (próxima de “espinho na carne”) é usada para simbolizar a presença indesejada de inimigos. O livro de Números (cf. Nm 33,55) usa a metáfora dos espinhos e farpas para falar de “adversários” e de “opositores”, sem referência a qualquer enfermidade. Essa imagem também está presente em Josué (cf. Js 23,13) e no Segundo Livro de Samuel (cf. 2 Sm 23,6).

Nesse sentido, o espinho de Paulo não seria de natureza fisiológica ou psicológica, mas espiritual — por meio da presença de um espírito impuro que provocaria hostilidade contra ele. De fato, Paulo afirma: “um anjo de Satanás para me espancar” (2 Cor 12,7). O termo grego “kolaphizo” significa “dar um tapa ou soco, tratar com violência”. Esse termo também é usado, por exemplo, em Mc 14,65; 1 Cor 4,11; 1 Pd 2,20. O anjo de Satanás ataca o Apóstolo da mesma maneira que os soldados agrediram Cristo no rosto (cf. Mt 26,67), isto é um modo de humilhá-lo. O Apóstolo reza para que esse mal (o espírito maligno) seja “afastado” dele. O mesmo verbo “afastar-se” (em grego “exêkhthē”, “ἐξήχθηen”) é utilizado por Lucas em Lc 4,13 e Lc 13,27.

A experiência mística de Paulo

Voltemos ao “contexto místico”. Paulo, nesta carta, precisa se defender e justificar-se contra os ataques de seus
adversários (cf. 2 Cor 8,10-12; cf. 2 Cor 11,4-5; cf. 2 Cor 11,22-30). Para isso, ele utiliza, em seu favor, a ironia e a zombaria:

Oxalá pudésseis suportar um pouco de loucura da minha parte!” (2 Cor 11,1)
É necessário gloriar-se? Por certo, não convém.” (2 Cor 12,1)

Mas na Segunda Carta aos Coríntios (cf. 2 Cor 12,1-10), o Apóstolo relata sua experiência espiritual (mística e extática). Um “êxtase” (cf. 2 Cor 12,2), vivido “há quatorze anos”. Ele descreve nessa ocasião uma dupla “tomada de distância”: “Conheço um homem” (2 Cor 12,2); e “se em seu corpo? Não sei; se fora de seu corpo? Não sei” (2 Cor 12,2). Marguerat comenta:

Sobre a equivalência entre ‘corpo’ (‘soma’) e ‘pessoa’: o místico arrebatado aos lugares celestes é, ao mesmo tempo, ele mesmo e, simultaneamente arrebatado para fora de si. A experiência mística culmina na prova do sofrimento, que é interpretada como uma experiência cristiforme (à semelhança de Cristo). (…) Contra uma mística que organizaria o êxodo do sujeito para fora de seu corpo, Paulo apresenta uma mística da inhabitação divina no corpo marcado (estigmatizado) do testemunho de Cristo.” 4

A realidade de sua experiência mística celestial não é negada. Paulo até teria elementos para usá-la como um forte argumento contra seus adversários de Corinto. Porém, Paulo evita usar esse fato em sua defesa, ele escolhe fundamentar a identidade de seu ministério no dom único e gratuito que o Senhor se utilizou para com ele, no seu chamado e na sua experiência de união mística. Para Marguerat:

Essa experiência não é uma categoria moral (vangloriar-se), mas uma categoria ontológica, que fundamenta a identidade do crente (o que sustenta sua vida).” 5

A experiência antropológica de Paulo

Segundo Marguerat, o termo “corpo” (em grego, “soma”, “σῶμα”) aparece nada menos que 56 vezes nas duas cartas aos Coríntios, contra apenas 18 vezes no conjunto das demais cartas paulinas. O que nos leva a constatar o caráter eminentemente antropológico da Segunda Carta aos Coríntios. Segundo nosso exegeta:


Em Corinto, Paulo debate-se com uma corrente cristã que pode ser qualificada de espiritualista; esses fiéis se concentram na busca por dons espirituais extáticos, como o falar em línguas, o dom de profecia, o poder de cura,
etc (cf. 1 Cor 12 e 14). Essa espiritualidade ‘pneumática’ leva à exploração dos recursos interiores do indivíduo, ao mesmo tempo que rebaixa a importância do corpo, cujo uso se torna insignificante. Daí a insistência do Apóstolo na dimensão ética de tudo o que toca ao corpo. A segunda parte do relato autobiográfico (cf. 2 Cor 12,7-9) é surpreendente, pois a experiência espiritual do Apóstolo não leva o leitor a olhar ‘para o céu’, mas sim ‘para a terra’, e não ‘para fora do corpo’, mas sim ‘para as profundezas da existência carnal do Apóstolo’.” 6

Quando sou fraco é então que sou forte

O terceiro aspecto dessa experiência — negativa em si mesma — nos revela que um “bem espiritual” foi realizado na vida do Apóstolo. É nesse sentido que falamos de um “sofrimento pedagógico”. O Patriarca José, entregue como escravo pelos seus irmãos, exclamou ao fim de sua história: “O mal que tínheis a intenção de fazer-me, o desígnio de Deus o mudou em bem!” (Gn 50, 20). De fato, de um mal, Deus pode (muitas vezes) fazer surgir um bem. Contudo, notemos que frequentemente é preciso esperar o fim da história para fazer essa leitura positiva. Seja qual for a natureza exata do “nosso” espinho, geralmente, ninguém gosta de admitir que é “fraco”. Sentimos tristeza e frustração primeiramente diante de nós mesmos. Ficamos tristes quando começamos uma tarefa e não conseguimos levá-la até o fim. Também acontece quando, por exemplo, os filhos nos fazem perder a paciência; quando não conseguimos resolver um problema; ou quando estamos às voltas com um pecado que nos acusa interiormente. Podemos então chegar a conclusão deprimente: “Sou incompetente… Não sou um bom pai. Não sou uma boa esposa ou um bom marido. Não sou um bom cristão nem um bom exemplo na minha comunidade!”.

Reconhecer-se fraco e incompetente diante dos outros é algo ainda mais difícil. Em geral, preferimos mostrar a imagem de uma pessoa competente, que conhece, assume e controla as situações. Na maioria das vezes, diante dos olhos dos outros, não podemos nos permitir — nem nos autorizamos — a sermos “fracos”.

Não é exatamente neste ponto que podemos verificar, de um lado, o orgulho pessoal que podemos ter, e do outro lado a reviravolta interior de que fala o Apóstolo?

O contexto do testemunho de Paulo na Segunda Carta aos Coríntios

Citamos aqui a leitura interessante e sintética feita pelo exegeta suíço Pierre Bonnard: “A Igreja de Corinto estava em plena crise de crescimento, uma crise caracterizada por uma intensa busca de ‘poder’ espiritual. Por outro lado, a maneira como o Apóstolo é levado a defender sua autoridade pessoal dá a entender que ele era acusado, justamente, de impotência, de fraqueza no exercício de seu apostolado. (…) Desde as primeiras palavras de sua carta, o Apóstolo a introduz insistindo sobre ‘o poder’ de Deus para a salvação dos homens — poder que se manifesta na ‘fraqueza’ da pregação apostólica (cf. 1 Cor 1,18.24; 2 Cor 4,7; 6,7). Esse é o tema fundamental das duas cartas aos Coríntios: Paulo quer desviar seus destinatários de seus sonhos de poder. (…) Por outro lado, longe de fixar a atenção dos coríntios sobre sua própria pessoa, o Apóstolo lhes mostra que sua fraqueza corresponde ao coração mesmo da revelação, que é o ‘enfraquecimento’ histórico de Deus em Jesus Cristo.” 7

É interessante notar que Paulo realizou várias vezes a oração de súplica pedindo sua cura ao menos “três vezes” (cf. 2 Cor 12,8), no que diz respeito a esse problema particular em sua própria pessoa. Isso indica que não se tratava, certamente, de um problema passageiro. Paulo suplicou ao Senhor que afastasse dele seu espinho; no entanto, não se pode acusar o Apóstolo de queixas ou lamúrias, pois em nenhuma de suas outras cartas, nem em qualquer outra ocasião, ele faz menção desse problema.

Leitura da experiência do “espinho” a partir de Deus

O que surpreende em seguida é a resposta que o Senhor transmite ao Apóstolo após sua tripla insistência (cf. 2 Cor 12,8): “Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta todo o seu poder.” (2 Cor 12,9). Daniel Marguerat apresenta a verdadeira experiência que Paulo quis destacar em sua carta:

À tripla oração para afastar esse espinho, para distanciar o anjo satânico que o atormenta… Mas que resposta! Segundo o gênero literário do arrebatamento celestial, o leitor esperaria a vinda de uma força divina sobre o homem (…), mas aqui acontece exatamente o contrário. No auge da experiência extática, o Apóstolo é radicalmente inscrito em sua carne, e numa carne mutilada (…). O pedido de alívio é respondido com uma recusa (da parte do Senhor).” 8

Essa experiência vivida por Paulo nos alerta de que Deus não é obrigado a responder aos nossos pedidos segundo nossa própria vontade. Devemos aceitar que Ele pode respondê-los de acordo com uma vontade diferente da nossa.

Leitura da experiência do “espinho” a partir de Paulo

A “graça” (χάρις, charis), aqui entendida como o chamado ao apostolado de Paulo, resume-se em permitir a manifestação de uma força divina. De fato, é uma força que “se realiza plenamente” apenas no cadinho da fraqueza. Por fim, Marguerat ilumina a experiência de Paulo, inscrita em sua carne e em um contexto de opressão apostólica: “Como uma graça, a força de Cristo vem habitar o corpo desarmado de Paulo (…) ‘Quando sou fraco, então é que sou forte’. Assim tudo é consumado. Claro, o que se deve entender é: sou forte com a força de Cristo que vem em mim. Mas o Apóstolo inverte o local da demonstração de poder frente aos seus detratores.” 9

A partir desse momento, Paulo adota um novo princípio. A partir de agora, esse princípio se tornará universal: “Por conseguinte, com todo o ânimo prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que repouse sobre mim a força de Cristo” (2 Cor 12,9b). Ele repete isso “a fim de que não me encha de soberba.” Paulo parece insistir num problema que o preocupa pessoalmente: o orgulho. Teria, então, o espinho na carne alguma relação com esse pecado? O Catecismo nos lembra que nossas orações de súplic devem vir acompanhadas de profunda confiança e humildade diante da forma como o Senhor responderá:

Assim, São Paulo deve aprender do Senhor que ‘a minha graça te basta: pois na fraqueza é que a minha força atua plenamente’ (2 Cor 12, 9), e que os sofrimentos a suportar podem ter como sentido que ‘eu complete na minha carne o que falta à paixão de Cristo, em benefício do Seu corpo, que é a Igreja’ (Cl 1,24).” 10

Se Jesus não cura, é porque certamente tem outro plano para nós

O Padre Emiliano Tardif, que viveu este belo ministério de oração pelos doentes, dizia com grande fé que os enfermos têm razão em pedir a cura ao Senhor: “Não devemos ter medo do amor de Jesus, da abundância de Seu Amor. Mas ele também acrescentava: É verdade, nem todos os doentes são curados. Por que Jesus, em Seu tempo, não curou todos os doentes que encontrou pelo caminho? Isso é um mistério de Seu Amor. Se Jesus não cura, é porque certamente tem outro plano para nós, ainda mais maravilhoso: unir nosso sofrimento físico ao Seu sofrimento redentor. E, nesse caso, outros irmãos se beneficiam dos frutos da nossa enfermidade, vivida com serenidade e alegria.” 11

Amar é imensamente importante para todos nós, mas quem pode garantir que esse amor nunca nos fará sofrer? A pessoa com quem mais corremos o risco de nos machucar será, certamente, aquela que mais amamos. Isso parece incrível e paradoxal, mas não é profundamente realista? De fato, são justamente aqueles que nos amam — e que nós amamos — que tendem a tocar (em nosso espinho!), exatamente onde dói.

Kierkegaard: “pela melancolia fui posto face ao possível”

O grande filósofo cristão dinamarquês Søren Kierkegaard (1813-1855), dedicou grande parte de sua obra à melancolia (na dimensão afetiva em seu ser) e ao desespero (na dimensão intelectual). Em seu Diário, ele escreveu: “Minha melancolia, durante muitos anos, fez com que eu não conseguisse me dizer ‘tu’ no sentido mais profundo. Entre a melancolia e esse ‘tu’ havia todo um mundo imaginário… Minha melancolia me afastou de mim mesmo, embora na descoberta e na experiência poética eu tenha percorrido todo um mundo imaginário. Como o herdeiro de vastas propriedades que nunca termina de conhecê-las – assim, pela melancolia, fui posto face ao possível.” 12

C.S. Lewis e o problema do sofrimento

Clive Staples Lewis (1898–1963), escritor, professor e crítico literário irlandês, brilhante acadêmico, tornou-se cristão (protestante), notadamente graças às conversas com seu amigo católico J. R. R. Tolkien. Após uma infância feliz, aos 10 anos, Clive perdeu a mãe, ficando órfão. Em seguida, foi seu irmão mais velho, Warren, quem adoeceu com câncer (no inverno de 1908) e morreu no verão seguinte. Seu avô, reitor da Igreja Anglicana, faleceu no mesmo ano, em 1909. A casa da infância tornou-se símbolo de dor: “Tudo o que era tranquilo e confiável desapareceu da minha vida. Um grande continente havia afundado, como Atlântida” 13.

Clive foi então enviado para um internato pouco depois dessas perdas. Essa experiência tornou-se um novo trauma. Ele conta que passou sete anos em três internatos diferentes. Sua experiência nesses anos foi horrível, durante os quais sofreu um profundo ódio por tudo o que viveu ali 14. Diante de ameaças de suicídio, seu pai o retirou do internato e o confiou a um tutor benevolente, que lhe devolveu o gosto pelos estudos. Ele foi admitido na prestigiosa Universidade de Oxford.

Mas seus estudos foram interrompidos quando Lewis foi convocado para lutar na Primeira Guerra Mundial
(1914–1918). Após a guerra, Lewis retornou à universidade, especializando-se em línguas e literatura clássica. Entre suas muitas publicações, em 1940 escreveu: “O Problema do Sofrimento (The Problem of Pain)”, que tornou-se uma obra de referência e um best-seller mundial de C. S. Lewis. Como o autor poderia ter escrito essa obra tão importante sem a densidade da experiência de sua própria história?

Você irá certamente realizar o propósito de Deus, de qualquer forma que possa agir, mas fará diferença em sua vida se servi-lO como Judas ou como João. O sistema inteiro, por assim dizer, é calculado em relação ao conflito entre homens bons e maus, e os frutos positivos da força, paciência, piedade e perdão para a crueldade do homem
cruel, pressupõem que o homem bom geralmente continue a buscar o simples bem.” 15

Pensamos que Deus só se apoia sobre nosso lado bom

A aceitação da nossa história ferida e dolorosa pode ser difícil. Por isso o Papa Francisco nos dá este conselho: aprender a acolher a nossa fraqueza, não de maneira forçada ou resignada, mas com o olhar de Cristo, ou seja, “com uma ternura profunda”: “A história da salvação realiza-se, ‘na esperança para além do que se podia esperar’ (cf. Rm 4, 18), através das nossas fraquezas. Muitas vezes pensamos que Deus conta apenas com a nossa parte boa e vitoriosa, quando, na verdade, a maior parte dos seus desígnios se cumpre através e apesar da nossa fraqueza (…). Se esta é a perspectiva da economia da salvação, devemos aprender a aceitar, com profunda ternura, a nossa fraqueza.” 16

Aceitar e acolher suas fraquezas

O psicanalista Jacques Arènes encontra muitos pacientes vivendo situações complicadas e angustiantes. Ele escreve em um de seus livros: “Muitas pessoas desejam mudar rapidamente, com um ‘tratamento’ eficaz e indolor, que as poupe do despojamento próprio de todo caminho de verdade. Acolher suas fraquezas, sem vitimismo nem onipotência do desejo, é o caminho de desilusão da psicanálise. É uma verdadeira violência a da fraqueza, pois me reencontro entregue ao mundo, sozinho e livre… Existem verdades que só nos aproximamos quando estamos desnudados. Depois de abrir muitas portas, entramos no quarto da descoberta despojados como no primeiro dia. Felizes por estar livres de tudo que pesava. E só resta o silêncio.” 17

Quando nos permitimos a uma abertura ao amor, necessariamente nos expomos à vulnerabilidade. Por meio da vulnerabilidade, corremos o risco de sermos feridos. Mas será mesmo necessário passar por essa “vulnerabilidade ferida”? É através do hino da Carta aos Filipenses, no movimento do Servo e de Sua kénose (cf. Fl 2, 5-11), bem como através da Segunda Carta aos Coríntios que Paulo nos responde, recentrando-nos no caminho trilhado pelo próprio Jesus, o caminho da pobreza evangélica: “Com efeito, conheceis a generosidade de nosso Senhor Jesus Cristo, que por causa de vós se fez pobre, embora fosse rico, para vos enriquecer com a sua pobreza.” (2 Cor 8, 9)

É, portanto, no abandono e na vulnerabilidade do coração, em um estado de total disponibilidade e ação a serviço do Reino, que seremos bons instrumentos de comunhão (koinonia) com nossos irmãos e irmãs na fé. Quando o Senhor não nos liberta dos males, Ele nos ajuda a amadurecer nos sofrimentos. Não podemos justificar a dor humana, pois ela sempre permanecerá um mal a ser combatido. Mas Deus, em sua pedagogia de amor, é sempre capaz de extrair de um mal um “bem maior”. O Papa Bento XVI, “traduziu” essa experiência do espinho na carne de Paulo para nós:

Sem dúvida, São Paulo teria preferido ser libertado desse ‘espinho’, desse sofrimento; mas Deus diz: ‘Não, isto é necessário para ti! Receberás a graça suficiente para resistir e para realizar quanto deve ser feito’. Isto é válido também para nós. O Senhor não nos liberta dos males, mas ajuda-nos a amadurecer nos sofrimentos, nas dificuldades e nas perseguições. Portanto, a fé diz-nos que, se permanecermos em Deus, ‘se em nós o homem exterior vai caminhando para a ruína, se existem muitas dificuldades, contudo o homem interior renova-se, amadurece dia após dia, precisamente nas provações’ (cf. 2 Cor 4, 16).” 18

Que cada pessoa ao ler e meditar sobre estas linhas receba da parte de Deus a visão justa sobre o “mistério” da sua vida e de seus sofrimentos, vividos em união com o Senhor.

Fonte:

1 Daniel Marguerat, Le corps, lieu de conflit entre l’esprit et la chair. Anthropologie paulinienne et dualisme (O corpo como um lugar de conflito entre o espírito e a carne. Antropologia paulina e dualismo). Chôra. Revue d’études anciennes et médiévales, 2015, p. 375‑393.

2 Ibidem.

3 Oftalmia refere-se a uma inflamação do olho, podendo envolver diversas estruturas como a conjuntiva, a córnea ou a úvea. Geralmente, é acompanhada de sintomas como vermelhidão, dor e inchaço.

4 Daniel Marguerat, Le corps, lieu de conflit entre l’esprit et la chair. Anthropologie paulinienne et dualisme (O corpo como um lugar de conflito entre o espírito e a carne. Antropologia paulina e dualismo). Chôra. Revue d’études anciennes et médiévales, 2015, p. 375‑393.

5 Ibidem.

6 Ibidem.

7 Pierre Bonnard. Faiblesse et puissance du Chrétien selon St-Paul (Fraqueza e potência do cristão, segundo São Paulo). Études théologiques et religieuses, 33e année, n. 2-3, 1958, p. 63.

8 Daniel Marguerat, Le corps, lieu de conflit entre l’esprit et la chair. Anthropologie paulinienne et dualisme (O corpo como um lugar de conflito entre o espírito e a carne. Antropologia paulina e dualismo). Chôra. Revue d’études anciennes et médiévales, 2015, p. 375‑393.

9 Ibidem.

10 Catecismo da Igreja Católica, “Curai os enfermos”, n. 1508.

11 Pe. Emiliano Tardif, WIKIPÉDIA: a enciclopédia livre. Disponível em: https:// fr.wikipedia.org/wiki/Émilien_Tardif. Acesso em 15 de julho de 2025.

12 Cf. Kierkegaard, Journal (Diário), VIII A 27, citado por Bernard Lemaigre, Séparation, mélancolie et écriture chez Kierkegaard (Separação, melancolia e escrita em Kierkegaard), em Revista Francesa de Psicanálise 2001/2, Éditions Presses Universitaires de France, Vol. 65, p. 563.

13 C.S. Lewis, Surpreendido pela alegria, a forma da minha infância. Projeto Gutenberg Canadá e-book nº 1275, 2015. Cap. I, p. 26.

14 Ibidem, cap. III, p. 29.

15 C.S. Lewis, Le problème de la souffrance (O Problema do Sofrimento). Edição original: The problem of pain, Geoffrey Bles-The Centenary Press, 2020, p. 39.

16 Papa Francisco, Carta Apostólica Patris Corde, por ocasião do 150º aniversário da Declaração de São José como patrono universal da Igreja, n. 2.

17 Jacques Arènes, Accueillir la faiblesse (Acolher a fragilidade), Ed. DDB (Desclée de Brouwer), 1999, p.8 e p.10.

18 Papa Bento XVI, Audiência Geral, Roma, 13 de junho de 2012.

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