“Deus, mais íntimo de mim do que eu mesmo! Eis o remédio e o bálsamo para as insaciáveis inquietudes dos homens de todos os tempos.”

“Comecei a empenhar todas as forças do espírito na busca de um argumento decisivo para demonstrar a falsidade dos maniqueus… Parecia-me, nesse momento de dúvida, que não devia permanecer nessa seita, se bem que recusasse terminantemente confiar a seus cuidados a fraqueza de minha alma, por ignorarem eles o nome de Cristo. Resolvi então permanecer como catecúmeno na Igreja Católica, até que alguma certeza viesse apontar- me o caminho a seguir.” 1

Desde sua infância, Agostinho de Hipona (354- 430) carregava dentro de si uma força de espírito que o fazia buscar… Mas o que ele buscava? Ou ainda, a quem ele buscava? Sabe-se que Agostinho passou toda a sua vida a buscar! Ele provou os movimentos das paixões de sua juventude, experimentou os pecados carnais e, apesar de tudo, não encontrou o objeto do seu desejo mais íntimo. Anos mais tarde, foi um brilhante professor de retórica em Cartago, porém novamente enfrentou a frustração. Ao ver o comportamento rebelde de seus alunos, que ignoravam o valor de seus ensinamentos, indignou-se e seguiu para Roma. Também lá não encontrou o que buscava, apesar dos títulos e cargos importantes que alcançou. Acabou sendo encontrado pela seita maniqueísta e nem assim a sua alma repousou na paz!

Agostinho foi tomado de incertezas. Estava enfermo em seu interior e chegou a cair no ceticismo. A quem poderia confiar a sua alma? Quem poderia saciar a sua inquietude da busca? De que valiam as certezas dos homens? Quem lhe daria a Verdade capaz de consolar a sua alma corrompida pelo pecado e pela vaidade?

A interioridade em Agostinho é intimidade. É um espaço interior existente dentro de cada homem e que é cavado e explorado por uma vontade da busca. Ali se travam questões tão desconcertantes para o homem e que, em Agostinho, se manifestam com um realismo cheio de vivacidade. Podemos perceber essa tensão existencial quando Agostinho se encontra com seu amigo Alípio às vésperas de sua conversão:

“Em meio à grande luta interior que eu travava no íntimo do coração contra mim mesmo, e transtornado na alma e na fisionomia corro para Alípio e exclamo: O que é que nos aflige tanto?… Dito isso, afastei-me, agitadíssimo, enquanto ele me olhava atônito, em silêncio. De fato, eu não falava como de costume, e minha fronte, minha face, meus olhos, minha cor, o tom da minha voz, mais do que as palavras, me denunciavam o estado de espírito. Junto da nossa residência havia um jardim… Para aí fui levado pelo tumulto do coração, onde ninguém podia interferir na luta violenta que travava comigo mesmo, e cujo resultado nem eu mesmo conhecia, somente tu. Eu enlouquecia para recuperar a razão, morria para viver, e estava consciente do meu mal, sem saber do bem que viria pouco depois.” 2

A inquietude da busca avança de tal forma no interior do homem que chega a ser sentida como uma doença da alma. É como se diz no Cântico dos Cânticos:

“Abro ao meu amado, mas o meu amado se foi… Procuro-o e não o encontro. Chamo-o e não me responde… Filhas de Jerusalém, eu vos conjuro: se encontrardes o meu amado, que lhe direis?… Dizei que estou doente de amor!” (Ct 5, 6.8)

Quando a alma chega ao auge dessa agonia, o Senhor a toma e conduz, a sua busca da Verdade transforma-se em diálogo de Amor. Tal ação divina acontece no silêncio e na interioridade do coração humano: “Que eu te conheça, ó conhecedor de mim, que eu te conheça, tal como sou conhecido por ti. Ó virtude da minha alma, entra nela e molda-a a ti, para que a tenhas e possuas sem mancha nem ruga.” 3

Deus, mais íntimo de mim do que eu mesmo! Eis o remédio e o bálsamo para as insaciáveis inquietudes dos homens de todos os tempos.“Quem, pois, dentre os homens conhece o que é do homem, senão o espírito do homem que nele está?” (1Cor 2, 11)

Deus interpela e provoca o homem a partir do seu íntimo. A verdade nos fala a partir de dentro. O homem, por sua vez, pode agora escutar o Verbo, um som que só ressoa a partir do interior! Nenhum ruído exterior pode perturbar essa paz. É aquela calmaria que costumamos perceber após a tempestade ter assolado o nosso pequeno barquinho!

“Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim, e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo! Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem. Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira! Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz.” 4

A busca de Agostinho ganha todo o sentido quando é compreendida a partir da sua própria origem. Foi o Médico do seu interior; Aquele que é mais íntimo do que ele mesmo; o seu Criador, Aquele que o fez à Sua Imagem e Semelhança e que o salvou da doença mortal do pecado… Sim, foi o Senhor que plantou no coração de Agostinho o desejo da busca e a sede de encontrar a Verdade, que não são outra coisa senão o próprio Amor! Na união das vontades, fruto desse amor tão íntimo, jorra uma fonte de paz. O homem encontra repouso na medida em que busca o Amor, que é Deus: “Sou aquela que encontrou a paz!” (Ct 8, 10b). “Fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração,
enquanto não repousa em ti.” 5
1

Ir. Maria Faustina
Virgem Consagrada SdV

 

Fontes:
1 Santo Agostinho, Confissões, Livro V, 14,25.
2 Ibidem, Livro VIII, 8,19.
3 Ibidem, Livro X, 1,1.
4 Ibidem, Livro X, 27, 38.
5 Ibidem, Livro I, 1,1.

 

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