(os Mistérios Luminosos durante sua vida)

Neste 4 de outubro de 2026, a grande família franciscana junto com toda Igreja, celebra os 800 anos da Páscoa (nascimento no céu) de São Francisco de Assis. Para honrar essa data, durante os meses de outubro, novembro e dezembro deste compêndio, apresentaremos um tríptico sobre os mistérios luminosos, dolorosos e gloriosos da vida de Francisco. Os textos deste tríptico relatarão certos pontos importantes do seu testemunho evangélico. Testemunho este que ainda hoje continua a falar à maioria dos homens do nosso tempo. Tomás de Celano, o primeiro historiador da vida de São Francisco de Assis, começa sua biografia com esta bela declaração:
“Brilhava ele como fulgente estrela na escuridão da noite, ou como aurora que se estende sobre as trevas.” 1
Com efeito, oito séculos após sua morte, Francisco de Assis revelou-se como uma enorme referência evangélica, como se todos estivessem de acordo com ele e aprovassem o exemplo de vida humana que ele propõe. O grande poeta italiano Dante Alighieri (século XIV) manifestou-se deste modo: “Nasceu para o mundo um sol” 2, ao referir-se ao poverello de Assis, este sol que tem irradiado seu brilho em nossos dias como nunca antes.
Francisco nasceu no fim de 1181 (ou início de 1182), em Assis, na região da Úmbria, Itália. Sua família era de
boa condição; seu pai, Pietro Bernardone, era um rico comerciante de tecidos; sua mãe, Dona Joanna Pica, era uma mulher piedosa, proveniente da nobreza. Sua mãe, de origem francesa, o fez batizar com o nome de Giovanni, na catedral de Assis. Mas seu pai, ao retornar da França, onde fizera bons negócios, preferiu chamá-lo de Francesco, nome que conservaria e pelo qual seria conhecido. Sua infância, adolescência e juventude se passaram sem grandes problemas. Francisco aprendeu latim na escola dos Cônegos da Igreja de São Jorge, em Assis. Estava destinado a ajudar seu pai e, eventualmente, sucedê-lo; por isso, deixou a escola aos 14 anos e entrou na corporação dos mercadores, cultivando ao mesmo tempo os ideais cavaleirescos de sua época. Segundo seus hagiógrafos 3, Francisco nutria a ambição de tornar-se cavaleiro, ou seja, prestar serviço armado montado a cavalo na cidade. Esse período da sua vida — da adolescência até sua conversão — compreende cerca de dez anos, isto é, entre 1196 e 1206.
Francisco sabia que um grande destino o aguardava
Naquela época, havia revoltas comunais, com burgueses aspirando à nobreza. Francisco, aos 20 anos, combateu
para defender Assis contra a nobreza de Perúgia. Mas a derrota dos assisienses em Perúgia, em novembro de 1201, custou-lhe um ano de prisão, durante o qual adoeceu (provavelmente de tuberculose). Foi libertado mediante pagamento, graças a seu pai, e retornou a Assis.
Entretanto, sua saúde permaneceu frágil desde então. Sentia-se atraído pelas canções de gesta dos trovadores 4,
gostava de entoar os cantos provençais (aprendidos com sua mãe), como as cantilenas e canções de amor cortês. A cortesia, que Francisco tanto apreciava, não era uma simples gentileza: era um modo refinado de viver, que
recusava a vulgaridade e cultivava uma bondade elegante, uma grandeza de alma. No entanto, parecia que ele tentava escapar do abraço de Deus, que o perseguia. Entre as virtudes essenciais da vida cortesã, a generosidade e a alegria são aquelas que Francisco mais amava praticar antes e depois de sua conversão — virtudes que se traduziam por sua generosidade em dar esmolas aos pobres, leprosos e sacerdotes, mas também pela sua alegria, como expressão da sua confiança na bondade de Deus. Durante grande parte do ano de 1204, uma longa doença imobilizou Francisco.
Foi nesse tempo que ele pôde “trabalhar” passo a passo, da transição de valores cavaleirescos para um programa de vida fundado no Evangelho. Do verão de 1205 até o início do ano de 1208, Francisco viveu uma virada. A sua conversão se deu de forma gradual. De volta a Assis, ele foi abandonando aos poucos seu estilo de vida mundano e seus companheiros de festa. Passou a frequentar cada vez mais as capelas do Vale de Espoleto (na
região da Úmbria). Para descrever as dimensões ou mistérios de sua vida e de sua Ordem, consultamos diversas obras da “vida de São Francisco”. Citemos aqui as preciosas fontes primitivas e seus primeiros biógrafos: Tomás de Celano, Frei Leão e São Boaventura, assim como os manuscritos franciscanos e uma obra mais moderna de Inácio Larrañaga. Não foi nossa intenção destacar alguns traços esquecendo outros, como por exemplo enfatizar o padroeiro da ecologia silenciando o monge. Contudo, não podíamos deixar de falar do homem de Deus, do fundador religioso, do asceta e do taumaturgo (a Igreja reconheceu mais de quarenta milagres atribuídos a São Francisco de Assis).
Por que segues o servo e não o Senhor?
Citamos aqui a hagiografia de Inácio Larrañaga, “O Irmão de Assis”: “Francisco ia para a Apúlia como um cruzado para defender o Papa. Despedira-se no dia anterior de seus pais e do povo da cidade. Nessa expedição militar, Francisco estava comprometido com a juventude de Assis, com os rapazes nobres que iam com ele, com o Conde Gentile a quem obedecia, com seus pais que punham nessa expedição seus sonhos de grandeza; comprometera sua honra, sua palavra de cavaleiro, seu nome… Todos os cronistas dizem que naquela noite Francisco escutou, em sonhos, uma voz que lhe perguntava:
– Francisco, aonde vais?
– Para a Apúlia, lutar pelo Papa.
– Dize, quem te pode recompensar melhor, o Senhor ou o
servo?
– O Senhor, é claro.
– Então, porque segues o servo e não o Senhor?
– Que tenho de fazer?
– Voltar para casa, pois tudo vai ser esclarecido.” 5
Naquela noite, Francisco recebeu de fato uma visita de Deus. Voltou para casa na manhã seguinte. E mesmo que os biógrafos tenham transmitido essa noite sob a forma de sonhos, foi, na verdade, um verdadeiro diálogo entre o Senhor e Francisco.
É possível que o próprio Francisco, ao evocar mais tarde essa experiência, a tenha apresentado como um sonho ou uma revelação. Pois como traduzir essa “revelação interior” que se impôs à sua consciência como uma convicção tão evidente?
“Francisco teve uma vivência incontestável e claríssima (que nem sonhos nem palavras poderiam dar) de que Deus (‘conhecido’, experimentado) é Todo Bem, Sumo Bem, Pleno Bem, o Único que vale a pena. Em comparação com Ele, títulos nobiliárquicos e os senhores da terra não passam de fumaça.” 6
Hoje diríamos que ele estava fascinado por um projeto completamente humano, com uma visão de grandes desejos, plausíveis e até realizáveis. Mas era essa a vontade de Deus? Eis a questão. Como uma religiosa bem conhecida por nós, que um dia apresentou ao Senhor, em oração profunda e autêntica, a visão de seu projeto. Ela compreendeu depois a resposta que Senhor lhe deu:
“Sim, você teve uma boa ideia… mas… essa não é a Minha Vontade!”. “da carne e do sangue” (cf. Mt 16,17).
Se Francisco decidiu voltar para casa na manhã seguinte, foi porque naquela noite algo importante havia acontecido. De fato, Francisco sempre demonstrava uma tenacidade impressionante em tudo o que empreendia.
Um simples sonho não poderia romper uma organização tão bem preparada. Somente uma intervenção forte e
libertadora de Deus poderia explicar tal reviravolta e uma renúncia como essa.
Naquela noite, todos os laços foram rompidos. Francisco sentiu-se livre. Já não se preocupava com nada,
exceto com o Senhor e como corresponder à Sua vontade.
Voltando a Assis, o que diria ao seu pai Bernardone e sua mãe Dona Pica, o que diria aos vizinhos e até aos prelados? Como explicar? Os mais indulgentes diriam que ele havia enlouquecido. Os mais maldosos falariam de deserção ou leviandade. Para um cavaleiro, a palavra mais temida era “covardia”. Um dia antes do acontecido, isso seria insuportável para ele. Mas hoje, ele não se importava mais. Sentia-se totalmente livre.
Na manhã seguinte, despediu-se — não se sabe como — de seus companheiros de expedição e tomou o caminho de volta. Uma experiência espiritual intensa, mesmo que dure apenas alguns minutos, marca uma pessoa por muito tempo, muitas vezes por toda a vida. Ao retornar de Espoleto para Assis, Francisco devia estar
mergulhado nessa Presença. Quando pôs os pés em Assis, ninguém podia acreditar. Ouviam-se os espantos e, mais tarde, espalhou-se um boato cheio de ironia, zombaria e, por vezes, sarcasmo. Mas Francisco, sob o efeito da visita divina, não se importava com nada e se apresentava com toda a sua serenidade.
Liberdade interior para responder ao chamado de Jesus
Em 1205, Francisco tinha 23 anos. Ele estava em oração diante do crucifixo da capela de São Damião. Segundo a
hagiografia, por três vezes o Cristo crucificado voltou-se para ele e lhe disse: “Vai, Francisco, e repara a minha Igreja em ruínas”. Esse simples evento da Palavra do Senhor ouvida na Igreja de São Damião guarda um simbolismo profundo. Imediatamente, Francisco partiu para a cidade vizinha de Foligno para vender peças de tecido do comércio do pai e um cavalo, a fim de restaurar uma capela em ruínas.
O Papa Bento XVI interpreta o profundo significado desse chamado dirigido a Francisco para a nossa vida em pleno século XXI:
“O estado de ruínas deste edifício é símbolo da situação dramática e preocupante da própria Igreja naquele tempo, com uma fé superficial que não forma e não transforma a vida, com um clero pouco zeloso, com o refrear-se do amor; uma destruição interior da Igreja que implica também uma decomposição da unidade, com o nascimento de movimentos heréticos”. 7
Bento XVI relaciona esse evento a outro, ocorrido em 1207: o sonho do Papa Inocêncio III. Neste sonho, o Papa Inocêncio vê a Basílica de São João de Latrão (a igreja-mãe de todas as igrejas) desmoronando e um pequeno e insignificante religioso a sustentá-la com os ombros para que ela não caísse. No sonho, o Papa reconheceu Francisco, que o visitou em seguida. Bento XVI comenta:
“Inocêncio III era um Papa poderoso, de grande cultura teológica, assim como de grande poder político, contudo não é ele quem renova a Igreja, mas um religioso pequeno e insignificante: é São Francisco, chamado por Deus. Por outro lado, é importante observar que São Francisco não renova a Igreja sem ou contra o Papa, mas em comunhão com ele. As duas realidades caminham juntas: o Sucessor de Pedro, os Bispos, a Igreja fundada na sucessão dos Apóstolos e o carisma novo que o Espírito Santo cria neste momento para renovar a Igreja. Ao mesmo tempo, cresce a verdadeira renovação.” 8
Francisco se retirou do mundo e da vida secular
Francisco também gastava muito dinheiro em esmolas, o que provocou a fúria de seu pai, que exigiu que ele prestasse contas, chegando a levá-lo à justiça para deserdá-lo. Ao final desse processo, no tribunal do Bispo Guido de Assis, Francisco rompeu os laços com o pai publicamente, despojando-se de suas roupas como um símbolo. Francisco, reivindicava para si o estatuto de penitente, o que lhe permitia escapar da justiça laica. Por isso, recebeu a convocação pelo bispo de Assis. É então que se deu a cena tão bem ilustrada por Giotto nas paredes da Basílica Superior de Assis. Durante sua audiência em plena praça da cidade, na primavera de 1206, Francisco devolveu o dinheiro que ainda restava consigo, bem como suas roupas, e diz ao pai e à multidão reunida: “Até agora chamei-te meu pai; mas de agora em diante posso dizer sem qualquer reserva: ‘Pai nosso que estais no céu’ (cf. Mt 6,9; cf. Lc 11,2), pois foi a Ele que confiei meu tesouro e Nele depositei minha fé.” 9
Ele se colocou sob a proteção do Bispo Guido, que o cobriu com seu manto, simbolizando que a Igreja o acolhia sob sua jurisdição, reconhecendo-o como religioso, no sentido canônico do termo. Ao retirar-se do mundo e da “vida secular”, Francisco rompeu não apenas com sua família, mas também com a comuna de Assis, que garantia os direitos de seus habitantes. Daí se explica porque ele passou a residir, de forma geral, fora dos muros, levando uma vida de eremita e mendigando seu alimento. Viveu assim como eremita, até que, em 1208, ocorreu outro evento fundamental no itinerário de sua conversão. Ele ouviu o discurso de Jesus aos seus apóstolos enviados em missão, no Evangelho de Mateus:
“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Pois aquele que quiser salvar a sua vida, a perderá, mas o que perder sua vida por causa de mim, a encontrará.” (Mt 16, 24-25).
Francisco sentiu-se chamado a viver na pobreza e a se consagrar à pregação. Alguns companheiros começaram a se juntar a ele e, em 1209, Francisco foi a Roma para submeter ao Papa Inocêncio III o projeto de uma nova forma de vida cristã. Ele recebeu o acolhimento paterno por parte desse grande Sumo Pontífice, que reconheceu a origem divina do movimento suscitado por Francisco.
O Papa Bento XVI comenta esse ato de submissão eclesial de Francisco da seguinte forma: “O Pobrezinho de Assis tinha compeendido que cada carisma doado pelo Espírito Santo deve ser colocado ao serviço do Corpo de Cristo, que é a Igreja; portanto agiu sempre em plena comunhão com a autoridade eclesiástica. Na vida dos santos não há contraste entre carisma profético e carisma de governo e, se surge alguma tensão, eles sabem esperar com paciência os tempos do Espírito Santo” 10.
Francisco e seu crescente número de irmãos se estabeleceram na Porciúncula (ou Igreja de Santa Maria dos Anjos), perto de Assis. O sucessor de Inocêncio III, o Papa Honório III (com sua bula Cum dilecti, de 1218), continuou a apoiar o desenvolvimento dos primeiros Frades Menores, que partiram para abrir suas missões em vários países europeus e até Marrocos.
O amor pela pobreza fez Francisco escolher entre si mesmo e Jesus
Francisco recolheu-se na solidão com a Senhora Pobreza para enxertar a vida apostólica na disciplina monástica. Ele buscava um remédio para os males de sua época e, assim, fazer penetrar o espírito evangélico nas estruturas e na vida da sociedade. E como afirma o Cardeal Raniero Cantalamessa, filho (capuchinho) do grande santo de
Assis:
“A famosa metáfora das núpcias de Francisco com a Senhora Pobreza, que deixou marcas profundas na arte e na poesia franciscanas, pode ser enganosa. Ele não se apaixona por uma virtude, nem mesmo pela pobreza; apaixona-se por uma pessoa. As núpcias de Francisco foram, como aquelas de outros místicos, um casamento com Cristo. Aos companheiros que lhe perguntavam se ele pretendia ter uma mulher, vendo-o uma noite estranhamente ausente e brilhante, o jovem Francisco respondeu: ‘Terei a esposa mais nobre e bela que vocês jamais viram’. Esta resposta é muitas vezes mal interpretada. Do contexto aparece claro que a esposa não é a pobreza, mas o tesouro escondido e a pérola preciosa, ou seja, Cristo.” 11
Francisco não pode ser encaixado em nenhuma das categorias nas quais historiadores e jornalistas tentaram
enquadrá-lo ao longo da história. Pois, como sublinha o Cardeal R. Cantalamessa: “A razão profunda da sua
conversão não é de natureza social, mas evangélica” 12. Esse mesmo detalhe foi destacado por seu primeiro
biógrafo, Tomás de Celano: “Um dia um leproso parou diante dele: fez violência a si mesmo, aproximou-se dele e o beijou. A partir daquele momento decidiu desprezar-se sempre mais, até que pela misericórdia do Redentor obteve plena vitória.” 13
Francisco trouxe luz de forma autêntica e profunda ao chamado de Jesus à vida de discípulo. O Cardeal destaca
que, ao abraçar o leproso “negou-se a si mesmo naquilo que era mais ‘amargo’ e repugnante à sua natureza. Fez
violência a si mesmo’ 14.
Francisco não foi movido apenas por compaixão humana ou religiosa, Celano escreverá sobre a esse respeito: “O próprio Senhor conduziu-me até eles”. 15
O Cardeal Cantalamessa continua: “A conversão de Francisco é da mesma natureza daquela de Paulo. Para Paulo, em certo momento, aquilo que antes tinha sido ‘lucro’ mudou e tornou-se ‘perda’, ‘por amor de Cristo’ (Fl 3,5ss); para Francisco aquilo que tinha sido amargo converteu-se em doçura, também aqui ‘por Cristo’”. 16
Por que todos correm a ti?
No livro que apresenta as “Flores escolhidas da vida de São Francisco”, Frei Masseu, um de seus primeiros
discípulos, teria lhe perguntado um dia: “Por que todos correm a ti?” 17. Inácio Larrañaga comenta: “Nesse tempo, o Irmão de Assis já era conhecido e admirado em toda a Úmbria e parte da Toscana. Todo mundo ia vê-lo, escutá-lo e, se possível, tocá-lo.
Fazia muitos dias que Frei Masseu estava intrigado e não conseguia entender por que todo mundo ia atrás de seu companheiro. Um dia, quando iam caminhando em silêncio, soltou pela primeira vez a pergunta explosiva:
– Por que a ti?’
Francisco não entendeu a pergunta e continuou em silêncio. Um pouco depois, com voz mais forte, veio a pergunta outra vez:
– Por que a ti mais do que a outro qualquer? Francisco perguntou:
– Que queres dizer com isso, Irmão Masseu? Francisco de Assis, não entendo nada.
– Que é que não entendes, Irmão Masseu?
– Olha, respondeu, de acordo com as regras do mundo, tu, Francisco de Assis, não tens nenhum motivo para cativar a atenção popular. Não és bonito, por que todos querem ver-te? Não és eloquente, por que todos querem ouvir-te Não és sábio, por que todos querem consultar-te? Por que todo mundo corre a ti quando não tens nada para atrair Qual é o segredo do teu fascínio?’ Quando ouviu isso, Francisco ficou visivelmente emocionado.
– Irmão, nunca foram ditas nesta terra palavras tão sábias. Diz-me, Masseu, onde foste buscar tanta sabedoria Quem te inspirou ideias tão certeiras? O Irmão Francisco levantou os olhos para o céu e disse: ‘Obrigado, Senhor Altíssimo, por teres revelado as grandes verdades às almas transparentes’. Depois respondeu a Masseu:
– Queres saber por que todos vêm a mim? Eu vou dizer: é para confundir, Ó, Frei Masseu! Aquele Altíssimo Senhor, cuja substância é Amor e Misericórdia, tem mil olhos, com que penetra nos meandros da alma humana. Ele vê o que está do outro lado das coisas.
Não há escuridão que não seja clareza para ele. Pois bem, esses altíssimos olhos olharam por toda a terra e não encontraram criatura mais incapaz, inútil, ignorante e ridícula do que eu. Justamente por isso, ele me escolheu, para ficar bem claro diante de todo mundo que o único Magnífico é o Senhor. E continuou: Se Francisco de Assis tivesse uma bela figura, uma eloquência arrebatadora, uma longa preparação nas escolas de Bolonha, e até sabedoria como os anjos, o povo ia dizer: É a sua beleza, é a sua sabedoria, é a sua eloquência. Mas, como não tenho nada disso, as pessoas são obrigadas a concluir que é o Senhor. (…) Por que me escolheu? Que vou dizer, Irmão Masseu? Repito que foi para confundir, Irmão, para confundir.
Para que fique evidente e estridente diante de todo mundo que o que salva não é a sabedoria, nem o preparo, nem os carismas pessoais, porque o único que salva, redime e ressuscita é o próprio Deus. Para que se saiba que não há outro Todo-Poderoso. Não há outro Deus a não ser o Senhor. Em resumo, ele me escolheu para confundir a nobreza, a grandeza, a fortaleza, a beleza e a sabedoria
do mundo’ . Quem ficou confundido foi Frei Masseu. Continuaram um bom tempo em silêncio, pensando nessas coisas. Durante dias, o Irmão falou a Frei Massseu sobre a humildade de coração.
– Frei Masseu, disse-lhe um dia, como eu quisera ser uma sombra diante da Luz. Nós não temos nada. Ou melhor, se temos alguma coisa, não é nossa, é empréstimo. Deus nos livre da tentação do furto. Porque o homem que se apropria dos dons de Deus é um ladrão, Frei Masseu. O Irmão que se envaidece por suas qualidades (que não lhe pertencem) é um ladrão vulgar. Frei Masseu!
Eu sou o maior pecador da terra. E isso não é mentira nem exagero. Se qualquer outra pessoa tivesse recebido tantas consolações como eu, seria um fidelíssimo servo de Deus.” 18 Oito séculos após a partida deste mundo do santo de Assis, essa pergunta: “Por que a ti?” continua atual — e hoje, com ainda mais razões para ser feita.
Francisco de Assis: um “alter Christus”
“Foi dito que Francisco representa um alter Christus, que era verdadeiramente um ícone vivo de Cristo. Ele foi chamado também ‘o irmão de Jesus’. De fato, era este o seu ideal: ser como Jesus; contemplar o Cristo do Evangelho, amá-lo intensamente, imitar as suas virtudes. Em particular, ele quis dar um valor fundamental à pobreza interior e exterior, ensinando-a também aos filhos espirituais.” 19
Os santos são, de fato, os melhores intérpretes da Bíblia; eles encarnam nas suas vidas a Palavra de Deus, tornando-a mais atraente do que nunca, permitindo que ela nos fale concretamente. O testemunho de Francisco, que amou a pobreza para seguir Cristo com total dedicação e liberdade, continua sendo também para nós um convite a cultivar a pobreza interior, a fim de crescer na confiança em Deus e vivendo na sobriedade em relação aos bens materiais e espirituais.
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