Virgindade, Pobreza, Unidade e Perfeita alegria!

“Amando-O, sereis casta;
Abraçando-O, ficareis mais pura;
Acolhendo-O, sereis virgem.
O Seu poder é mais forte,
a sua generosidade, mais excelsa,
o seu aspecto, mais formoso,
o seu amor, mais suave,
e as suas graças, de maior encanto.
Ele vos segura em seus braços,
e ornamenta de pedras preciosas o vosso peito,
e enfeita de joias inestimáveis as vossas orelhas
E vos envolve de pérolas cintilantes,
coroando-vos com a coroa de ouro,
marcada com o sinal da santidade. (cf. Ecl 45, 14) ” 1

São Francisco (1182-1226)

Aprendeu com o Senhor a se deixar salvar, revirginizar, pacificar e simplificar, não temendo enfrentar as tentações que pareciam esmagadoras, avassaladoras e vitoriosas: “Nesse mesmo tempo, como o bem-aventurado Francisco morasse no lugar de Santa Maria, aconteceu que, para o proveito de sua alma, foi introduzida nele uma gravíssima tentação do espírito, de modo que seu espírito e seu corpo ficaram muito atribulados, por dentro e por fora. Chegou a ponto de se afastar da familiaridade com os irmãos, principalmente porque, por causa dessa tentação, não podia se mostrar alegre entre eles, como era seu costume. Afligia-se não só pela abstinência de comida, mas também pelas palavras; ia muitas vezes para a oração no bosque que havia perto da igreja, para mostrar melhor sua dor e para poder derramar suas lágrimas mais abundantemente diante do Senhor, para que, no meio de tanta tribulação, o Senhor, que tudo pode, se dignasse mandar-lhe remédio do céu. Como já tivesse sido tão atribulado por essa tentação durante mais de dois anos, de dia e de noite, aconteceu que um dia, quando estava em oração na igreja de Santa Maria, foi-lhe dita em espírito aquela palavra do santo Evangelho:

‘Se tivesses fé como um grão de mostarda e dissesses àquele monte para sair de seu lugar e se transferir para outro, isso aconteceria’. São Francisco respondeu: ‘Que monte é esse?’ E lhe foi respondido: ‘Esse monte é a tua tentação’. Disse o bem-aventurado Francisco: ‘Portanto, Senhor, faça-se em mim como disseste’. E ficou livre imediatamente, a ponto de lhe parecer que nunca tinha tido aquela tentação.” 2

O Poverello de Assis descobre, por caminhos escarpados (sofrendo até mesmo a sugestão do suicídio, pouco antes de receber os estigmas!), na “fenda do rochedo”(cf. Ct 2,14) no Monte Alverne, um caminho de progressivo despojamento e de simultâneo desposório íntimo com seu Bem-Amado, Jesus Crucificado que o conduz ao cume das virtudes e da Beatitude eterna, pois:

“Onde há caridade e sabedoria, aí
não há temor nem ignorância.
Onde há paciência e humildade, aí
não há ira nem perturbação.
Onde há pobreza com alegria, aí
não há cobiça nem avareza.
Onde há quietude e meditação, aí não
há preocupações nem dissipação.
Onde há temor do Senhor guardando a porta,
aí o inimigo não acha jeito de entrar.
Onde há misericórdia e discrição, aí não há
superficialidade nem endurecimento.” 3

Santa Clara (1194-1253)

Sua primeira filha espiritual, com sua alma pura e virginal sabe ser extremamente filial e, ao mesmo tempo, mãe espiritual das almas, inclusive de seu Pai Francisco! Como mulher de Deus, esteve atenta às moções do Espírito para responder com todo o seu ser ao chamado de Deus: “Feliz daquela a quem foi dado de gozar desta íntima união e que lhe aderiu com todas as fibras do seu coração” 4.

Ela exorta suas filhas a jamais perderem de vista as motivações do início, correndo velozmente e ultrapassando todos os obstáculos:

“Mas uma só coisa é necessária (cf. Lc 10, 42), a uma só coisa eu te chamo a atenção por amor d’Aquele a quem te ofereceste como hóstia santa e agradável (cf. Rm 12, 1). Eu te exorto a não esqueceres o teu santo propósito… e, qual outra Raquel (cf. Gn 29, 16), não percas de vista as motivações do início: mantém-te firme no que alcançastes, sê constante no que fazes; não desanimes no caminho, corre veloz, com passo leve, sem tropeçar, que nem a teus pés o pó se apegue; avança segura, alegre e jovial, no caminho da felicidade, não acredites nem confies em quem te tentar desviar deste propósito; ultrapassa todo o obstáculo do caminho, e sê fiel ao Altíssimo (cf. Sl 150, 14), no estado de perfeição, a que te chamou o Espírito Santo.” 5

Aqueles que o Senhor elegeu e coroou com o “estandarte da virgindade inviolável” 6 devem estar
prontos para o combate, na certeza que:

“Se com Ele sofreres,
com Ele reinarás;
se com Ele chorares,
com Ele exultarás;

se com Ele morreres na Cruz da tribulação,
com Ele habitarás na glória dos santos (cf. Rm 8, 17),
na mansão celeste
e teu nome será gravado no livro da vida
e para sempre será glorificado entre os homens (cf. Ap 3, 5).
Sê forte no Senhor teu Esposo!” 7

Santa Clara apesar da sua jovem idade ajudou suas irmãs a perseverarem na fidelidade ao chamado, com
enorme ternura e realismo espiritual:

“Sê fiel, querida irmã, Àquele a quem te prometeste fidelidade até a morte, porque, um dia receberás a coroa da vida. Breve é a nossa labuta neste mundo, mas eterna é a recompensa. Não te seduzam os esplendores deste mundo, que desaparecem como sombra. Não te encandeies Com as aparências enganadoras do século; Nem dês ouvidos aos ruídos do maligno, resiste energicamente às suas tentações. Suporta com alegria as adversidades, e não te envaideças na prosperidade; A fé faz-nos humildes nos sucessos E impassíveis nas adversidades; Sê fiel no que a Deus prometeste, Ele mesmo te dará a recompensa. Olha, caríssima, o Céu que nos convida; Toma a tua cruz e segue a Cristo, que nos precedeu. Depois de muitas tribulações, Ele nos introduzirá na Sua glória.

Ama de todo coração a Deus e a Jesus Cristo, seu Filho crucificado por causa de nossos pecados, e que a sua memória jamais se apague no teu espírito. Medita sempre o mistério do Calvário e os sofrimentos da Mãe ao pé da Cruz. Ora e vigia sempre. Leva a cabo, com persistência, a obra começada, e cumpre, em santa pobreza e sincera humildade, o ministério que assumiste. Nada temas, querida filha. Deus é fiel em todas as suas palavras e obras e derramará suas bençãos sobre ti e tuas filhas. Ele será o teu auxílio e a melhor consolação. Ele é o nosso Redentor e nossa recompensa.” 8

Deus é e Basta: A Escola da Perfeita Alegria!

Clara soube permanecer filha, mulher, esposa e mãe das almas a ponto de ser capaz de ajudar Francisco, no
auge de sua noite escura, a amadurecer e assim entrar na Perfeita Alegria:
“Deus é, e basta, esta é a Perfeita Alegria:

“Clara tinha adivinhado, de longe, a perturbação do Irmão e, com audácia feminina, decidiu salvar Francisco de si mesmo. Fazia meses, talvez anos, que Francisco não visitava as Damas Pobres. ‘Não tenho nada para lhes dar’, pensava o Irmão. (…) Um dia, Clara mandou chamar o Irmão Leão e lhe diz ‘Querido Leão, leva estas palavras, da minha parte a Francisco: Irmão Francisco, acendeste as nossas chamas e agora deixas que se apaguem? (…) Plantaste estas plantinhas e agora as deixas sem regar? Pensa se não estarás faltando com tua palavra de cavalheiro. Esqueceste que somos tuas Damas Pobres? Precisamos de ti. Quem sabe se tu também não necessitas denós? Esperamos-te para o almoço. Vem’. Irmão Leão transmitiu a Francisco as palavras de Clara. (…) ‘Sim’, disse o Irmão, ‘Clara tem razão. (…) Não é correto plantar uma roseira e deixá-la sem cultivo. Não posso permitir que essas tochas se apaguem. Irei a São Damião, Irmão Leão’. (…) Quando o Irmão chegou a São Damião, Clara recebeu-o dizendo: ‘Há milhares de anos que te esperamos, Pai Francisco’. ‘São Damião é uma ânfora perfumada, Irmã Clara’, respondeu Francisco. ‘Todos os dias eu levanto essa ânfora em minhas mãos, diante do Senhor. Estais presentes em
mim, como os filhos em uma mãe. Esquecer-vos? Não é possível.’ (…) E continuou: ‘O que importa é o espírito, Irmã Clara. Além disso, a gente dá a mão para os primeiros passos. Depois, cada um caminha sem apoios (…)’. ‘Pai Francisco, eu sou a tua plantinha. Se tenho ou sei alguma coisa, recebi tudo de ti. Estás metido em um bosque, Pai Francisco.

Não podes ter uma boa visão. Eu estou longe e por isso me encontro numa posição melhor para medir as proporções. Temo que o que está acontecendo contigo seja um pequeno problema de apreciação. Dias atrás eu li que um mosteiro antigo se dividiu por causa de um gatinho. Uma irmã se afeiçoou a um gatinho. As outras olhavam feio para a ‘dona’ do gatinho e essa respondia da mesma maneira, até que o mosteiro se dividiu entre irmãs que olhavam feio para o gatinho e irmãs que gostavam do gatinho. Este já era o único ‘deus’ do mosteiro. Não sei se isso é histórico ou uma alegoria. Um pequeno problema de apreciação, Pai Francisco. A coisa que amamos nos prende. Às vezes, fico em dúvida se é a coisa que nos prende ou nós que nos prendemos à coisa. Possivelmente, não há diferença entre um e outro.

Quando aparece alguma ameaça para a coisa que amamos, isto é, quando surge um perigo de que ela nos escape, nós a agarramos com mais força. (…) E assim, no fim, vemos que no mosteiro o principal é o gatinho, a que demos uma importância desproporcionada’. ‘Pai Francisco, o ideal, a Ordem, a Pobreza, são certamente importantes. Mas levanta um pouco os olhos; olha ao teu redor e verás uma realidade sem fim, altíssima: Deus. Se olhares para Deus, o que tanto te preocupa vai parecer insignificante. (…) Que valem nossos pequenos ideais diante da eternidade e imensidão de Deus? Quando se olha para a altura do Altíssimo, nossos temores parecem sombras ridículas. Na altura de Deus, as coisas adquirem seu tamanho real, tudo fica ajustado e chega a paz’. Clara aproximou-se e continuou, devagarzinho: ‘Querido Francisco, Deus! Deus!’. (…) Mas, se agora reina alguma sombra em teu interior, é sinal de que estás preso a alguma coisa e que Deus ainda não é o teu tudo. Daí a tua tristeza. Em
resumo, é sinal que catalogaste como obra de Deus o que, na realidade, é obra tua.

Para a Perfeita Alegria só te falta uma coisa: desapegar-te da obra de Deus e ficar só com o próprio Deus, completamente despojado. Ainda não és completamente pobre, Irmão Francisco, e por isso ainda não és completamente livre, nem feliz. Solta-te de ti mesmo e dá o salto mortal: Deus é, e basta. (…)’ Clara calou-se. Sem perceber, o irmão deixava cair lágrimas tranquilas. (…) Levantou-se devagarzinho, sem levantar os olhos, repleto de felicidade e disse, pela última vez: ‘Deus é, e basta. Esta é a Perfeita Alegria’.” 9

Ir. Maria Sarah
Moderadora Geral
Comunidade Sementes do Verbo

Fontes:

1 Santa Clara, Primeira Carta a Inês de Praga (1CCL), Escritos Francisco e Clara de Assis, Editorial Franciscana, Braga – 2007, p. 266-267.

2 Fontes Franciscanas, Legenda Perugina, Seção segunda, 21, p.1184.

3 Hino às Virtudes de São Francisco de Assis, Admoestações, n. 27.

4 Santa Clara, Quarta Carta a a Inês de Praga (4CCL), p. 286.

5 Santa Clara, Segunda Carta a a Inês de Praga (2CCL), p. 273-274.

6 Santa Clara, Primeira Carta a a Inês de Praga (1CCL), p. 267.

7 Santa Clara, Segunda Carta a a Inês de Praga (2CCL), p. 275.

8 Santa Clara, Carta a Ermentrudis de Bruges (5CCL), p. 290-291.