
“Não são os que têm saúde que precisam de médico, e sim os doentes. Ide, pois, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não o sacrifício. Com efeito, eu não vim chamar justos, mas pecadores.’” (Mt 9, 12-13)
O desejo dos doentes de obter a cura é algo legítimo, profundamente humano e bom, sobretudo quando está acompanhado por uma oração de fé confiante dirigida a Deus. Desde a Primeira Aliança, muitas passagens bíblicas exortam o doente e o necessitado à oração, como estas palavras: “Filho, não te revoltes na tua doença, mas reza ao Senhor e ele te curará.” (Eclo 38, 9). Também diversos salmos de Israel são súplicas para obter a cura do Senhor (cf. Sl 6; 38; 39; 41; 69; 103; 143…).
Nos Evangelhos, muitos doentes dirigem-se a Jesus, diretamente ou por meio de intercessores, para implorar com fé a recuperção da saúde. O Senhor acolhe esses pedidos com compaixão e não há exemplo de que tenha rejeitado tais orações; ao contrário, Ele mesmo declarou: “Quem vem a mim, eu não o rejeitarei” (Jo 6, 37). O Senhor confia a missão de curar aos seus apóstolos, mas também, quando envia os setenta e dois discípulos Ele ordena: “Curai os enfermos” (Lc 10,9). A oração dos fiéis pedindo cura para si ou para outros é louvável. Aliás, a Igreja, em sua liturgia, pede regularmente ao Senhor pela saúde dos doentes. Há no mundo, e em nossos corações, uma força muito maior que todas as energias humanas, é a “força-fraca” da oração. Corremos o risco de esquecer esta verdade, pois é uma força tão pequena e humilde. Muitas vezes relativizamos esta graça “organizada” pelo próprio Jesus quando disse: “Se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que queiram pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus” (Mt 18, 19).
O sacramento dos Enfermos também tem por objetivo confortar aqueles que sofrem com a doença. A “Unção dos Enfermos” é baseada na carta de Tiago: “Sofre alguém dentre vós um contratempo? Recorra à oração. Está alguém alegre? Cante. Alguém dentre vós está doente? Mande chamar os presbíteros da Igreja para que orem sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor. A oração da fé salvará o doente e o Senhor o porá de pé; e se tiver cometido pecados, estes lhe serão perdoados. Confessai, pois, uns aos outros vossos pecados e orai uns pelos outros, para que sejais curados.” (Tg 5,13-16)
Neste compêndio, procuramos apresentar a “oração de cura interior”. Essa oração ocorre de forma extrasacramental, quando a comunidade de irmãos e irmãs se reúne em Nome do Senhor, em torno da Palavra de Deus e sob a condução e escuta do Espírito Santo. As orações de cura são consideradas “não litúrgicas”. Elas têm caráter “litúrgico” apenas quando celebradas segundo os livros litúrgicos aprovados pela Igreja. Exceto as cerimônias para a Unção dos Enfermos previstas nesses livros, as orações de cura não litúrgicas devem acontecer fora da celebração da Missa, dos Sacramentos e da Liturgia das Horas. 1
A fé abre o doente à graça da salvação
O Papa Bento XVI comentou a cura dos dez leprosos por Jesus (cf. Lc 17, 11-19): “Esta página evangélica convida-nos a uma dupla reflexão. Antes de tudo faz pensar em duas grandes curas: uma mais superficial, refere-se ao corpo; a outra, mais profunda, toca o íntimo da pessoa, o que a Bíblia chama ‘coração’, e dali irradia-se a toda a existência. A cura completa e radical é a ‘salvação’. A mesma linguagem comum, distinguindo entre ‘saúde’ e ‘salvação’, ajudanos a compreender que a salvação é muito mais que a saúde: de fato, é uma vida nova, plena, definitiva. Além disso, aqui Jesus, como noutras ocasiões, pronuncia a expressão: ‘Salvou-te a tua fé’. É a fé que salva o homem, restabelecendo-o na sua relação profunda com Deus, consigo mesmo e com os outros; e a fé expressa-se no reconhecimento. Quem, como o samaritano curado, sabe agradecer, demonstra que não considera tudo como um direito, mas como um dom que, também quando chega através dos homens ou da natureza, provém ultimamente de Deus. Portanto a fé exige que o homem se abra à graça do Senhor; reconheça que tudo é dom, tudo é graça. Que tesouro se esconde numa pequena palavra: “obrigado!’. Abrindo o coração a Deus, a pessoa que se converte é curada interiormente do mal.” 2
No entanto, pode permanecer em cada um de nós uma certa hesitação quanto à fé nas curas e milagres que o Senhor poderia realizar em nossas vidas: Eu tenho razão em pedi-los? Não seria orgulho da minha parte? Será realmente a vontade de Deus? “Mas, quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?” (Lc 18, 8)
Com a “corrente de graças” da Renovação na Igreja, pode se reconhecer um novo impulso do Espírito Santo, uma força nova da fé, manifestada justamente em carismas de fé, de conhecimento profético, de compaixão pelos doentes e feridos da vida. Esses carismas pressupõem outro carisma ao seu lado, que é o do discernimento dos espíritos (cf. 1 Cor 12,10). Esse carisma vem em auxílio a fim de se verificar: o que vem da pessoa, o que vem da graça divina e o que pode vir do demônio.
O Senhor respeita sempre o pedido do doente
“Que queres que Eu te faça?” (Lc 18,41)
É certo que o Senhor sabe o que é bom e o que é melhor para cada um dos seus filhos. Poderíamos pensar, por isso, que estamos dispensados de Lhe expressar qualquer pedido. Mas não é assim, muito pelo contrário, como descreve Santa Teresa de Jesus: “O Senhor não violenta a nossa vontade (…). Ele é amigo de toda ordem” 3. Nos Evangelhos, encontramos situações evidentes da necessidade de cura. Porém, Jesus interroga o doente – como para verificar sua vontade profunda – antes de curá-lo: “Jesus, vendo o enfermo deitado e sabendo que já estava assim havia muito tempo, perguntou-lhe: ‘Queres ficar curado?’ Respondeu-lhe o enfermo: ‘Senhor, não tenho quem me jogue na piscina, quando a água é agitada; ao chegar, outro já desceu antes de mim.’” (Jo 5, 6-8).
“A este paralítico Jesus faz uma pergunta que pode parecer supérflua: ‘Queres ficar curado?’ (v. 6). No entanto, é uma pergunta necessária, pois quando se está bloqueado há tantos anos, pode faltar até a vontade de se curar. Às vezes preferimos permanecer na condição de doentes, obrigando os outros a cuidar de nós. É por vezes até um pretexto para não decidir o que fazer da nossa vida. Jesus, pelo contrário, remete este homem para o seu desejo mais verdadeiro e profundo.” 4
Esse respeito absoluto ao pedido particular do doente é muito importante, pois ninguém pode impor uma oração de cura e libertação sem o consentimento e de acordo com a expectativa do doente. Às vezes, podemos ser surpreendidos pela espera profunda de uma graça, a qual deve ser escutada com atenção, pois pode acontecer que essa espera não corresponda ou não esteja necessariamente ligada a um pedido de cura, mas ao pedido de estarmos unidos ao Senhor em Seu mistério de sofrimento. No entanto, muitas pessoas – talvez todas – sentem a necessidade de serem libertas de algo. Uma libertação súbita resolveria muitos dos nossos problemas, seja no plano físico, psicológico ou espiritual, mas nada é tão instantâneo.
É necessário esclarecer que os animadores de oração de cura não devem impedir que o doente continue a utilizar medicamentos e outros meios naturais recomendados pela medicina para conservar e recuperar a saúde. De fato: “Faz parte do plano divino da Providência que o homem lute arduamente contra todas as enfermidades e busque também solicitamente o bem da saúde, para desempenhar, na sociedade humana e na Igreja, o seu papel” 5.
Uma força saía dEle e curava a todos
“Havia numeroso grupo de discípulos e imensa multidão de pessoas de toda a Judeia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e Sidônia. Tinham vindo para ouvi-lo e ser curados de suas doenças. Os atormentados por espíritos impuros também eram curados. E toda a multidão procurava tocá-lo, porque dele saía uma força que a todos curava.” (Lc 6, 17-19)
Raniero Cantalamessa comenta essa cena evangélica: “Que força era essa que saía de Jesus? Um fluido magnético, uma corrente hipnótica, uma força de sugestão ou algo semelhante? Certamente não, era o Espírito Santo: ‘Jesus voltou para a Galileia com a força do Espírito’ (Lc 4, 14) e ‘o poder do Senhor fazia com que operasse curas’ (Lc 5, 17).” 6
O Cardeal destaca que “a multidão vinha para ouvi-lo e ser curada”, diria ainda que não apenas para ouvir ou ser curada. Tratava-se da cura por meio da Palavra! A Escritura é clara: “Não os curou nem erva nem unguento, mas a tua palavra, Senhor, que tudo cura.” (Sb 16,12).
A Palavra de Deus é um instrumento privilegiado de cura
Os Evangelhos atestam que Jesus sempre uniu os dois ministérios – o de evangelizar e o de curar os doentes: “Convocando os Doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios, bem como para curar doenças, e enviou-os a proclamar o Reino de Deus e a curar.” (Lc 9, 1-2).
Às vezes se diz que não se deve insistir por curas, com base no fato de que Jesus não curou todos os doentes do seu tempo. Mas essa constatação não é tão verdadeira quanto parece. Exceto por raras exceções, Jesus não curou todos aqueles que vinham a Ele – ou que lhe eram apresentados – especialmente quando esses gestos vinham acompanhados de atos notáveis de fé? De fato, tanto ontem como hoje, quando o Senhor cura uma pessoa pelo poder do Seu Espírito, não é apenas um sofrimento ou uma angústia que chega ao fim – o que já é um presente enorme –, mas para a pessoa curada ou libertada é, sobretudo, uma vida nova que começa.
O carisma da compaixão, necessário para a oração de cura
A oração de intercessão pelos doentes é importante, especialmente quando vivida em unidade de fé com irmãos e irmãs. Em latim, a palavra “intercessão” vem de inter-cedere, que significa “colocar-se entre”. De fato, pela nossa oração, colocamo-nos como intercessores entre o doente e Deus, no Seu Amor manifestado em Jesus Cristo, que pode curar, salvar, libertar.
“As duas irmãs mandaram, então, dizer a Jesus: ‘Senhor, aquele que amas está doente’. A essa notícia, Jesus disse: ‘Essa doença não é mortal, mas para a glória de Deus, para que, por ela, seja glorificado o Filho de Deus’.” (Jo 11, 3-4)
Mais do que uma graça de intercessão, o carisma de compaixão é útil e necessário para mover a oração dos irmãos num serviço de cura e libertação. A palavra “compaixão”, que significa “sofrer com”, não corresponde a um sentimentalismo nem a um simples estado afetivo, mas a um verdadeiro carisma, dado pelo Espírito Santo, para o bem comum (cf. 1 Cor 12,7). Claro que Deus é livre para intervir diretamente quando quiser e curar da maneira que desejar, mas é importante observar: o Senhor age com mais poder quando irmãos e irmãs se reúnem em Seu Nome e escutam o Espírito Santo através dos carismas, pedindo cura e libertação para os que sofrem. O Pe. Emiliano Tardif, que exerceu um ministério de cura durante muitos anos, testemunhava sobre essa disponibilidade fundamental ao Espírito do Senhor por parte de quem exerce um ministério de cura:
“Não há receita nesse ministério, é importante notar isso. Também não há regras, a não ser ter compaixão pelo doente e crer na Palavra de Jesus. Nossa esperança não se apoia na nossa capacidade de agir, mas no amor de Jesus, que nos ama e vem em auxílio à nossa fraqueza com o poder do seu Espírito Santo.” 7
Devemos esclarecer que aqueles que receberam um carisma não são por isso “mais santos” do que outros que não o receberam! Os carismas não são um critério de santidade. Podemos dizer apenas o seguinte: o bom uso de um carisma sempre impulsiona a pessoa a se santificar humildemente e de progresso em progresso. E esse mesmo crescimento na santificação torna os carismas pessoais mais fecundos para a comunidade. É claro que devemos valorizar bem mais o poder de cura e libertação quando vivemos e celebramos os sacramentos da Igreja. No entanto, isso não nos dá desculpa para ignorar a experiência dos carismas e o acolhimento dos “sinais que acompanharão os que tiverem crido” (Mc 16,17).
Anunciar Cristo Vivo
“Meu Senhor e meu Salvador” (Jo 20,28)
O Apóstolo Pedro, na casa do centurião romano Cornélio, declarou: “Sabeis o que aconteceu por toda a Judeia: Jesus de Nazaré, começando pela Galileia depois do batismo proclamado por João; como Deus o ungiu com o Espírito Santo e com poder, e ele passou fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo diabo, porque Deus estava com ele.” (At 10,37-38) Antes de iniciar uma oração de pedido de cura, reconciliação e libertação, devemos anunciar o querigma aos doentes e feridos, ou seja, o essencial da fé e da salvação, pela presença do Senhor em nossas vidas e na Igreja. Isso é necessário porque é Ele, o Senhor, quem age por Sua presença e por Sua Palavra. O Pe. Emiliano Tardif dizia: “Meu ministério é evangelizar. Aprendi a não rezar pelos doentes antes de proclamar a vitória de Jesus na cruz e o triunfo de Sua ressurreição.” 8
Se dois de vós, sobre a terra, unirem suas vozes para pedir qualquer coisa
“Estes são os sinais que acompanharão os que tiverem crido: em meu nome expulsarão demônios, falarão em novas línguas, pegarão em serpentes, e se beberem algum veneno mortífero, nada sofrerão; imporão as mãos sobre os enfermos e estes ficarão curados.” (Mc 16,17-18)
Aquele que se sente chamado a um serviço de oração junto aos doentes, no exercício de um carisma de cura e de compaixão, não pode exercer esse chamado “sozinho”, como um solista, de forma isolada ou excessivamente pessoal. Essa pessoa vai precisar de irmãos e irmãs com ele, pois o Espírito Santo, que vem guiar e inspirar essa oração de escuta e compaixão, necessita que “estejamos reunidos em Nome do Senhor para pedir em oração” (cf. Mt 18,19-20). Alguns carismas correm o risco de serem perdidos por falta de comunhão e espírito fraterno, e por não estarem enraizados numa terra mais profunda de maturidade espiritual e fraterna. Além disso, será sempre necessário, após uma oração de cura ou de libertação, conduzir o acompanhamento de cada pessoa até à dimensão sacramental e eclesial. De fato, uma comunidade que vive regularmente a Liturgia da Igreja na graça do Espírito Santo participa do Corpo de Cristo que cura. Essa realidade de comunhão sacramental carrega verdadeiramente em si um ministério de cura e libertação, especialmente quando se vive uma unidade
autêntica e profunda no Espírito de Cristo. Um amigo nosso, médico, que viveu um belo ministério de cura, compartilhou durante um simpósio sobre os combates de um servo de Deus a serviço da oração de cura pelos doentes. Ele resumiu isso em quatro desafios e vigilâncias:
1) A tentação do orgulho, que busca tirar algum mérito — mesmo pequeno — no fato da cura, já que Deus se serve de mim (ou de nós).
2) A tentação do cansaço, pois o ministério de cura e libertação pode rapidamente se tornar exaustivo, principalmente no plano moral e espiritual. As surpresas e até as dúvidas podem surgir no processo de acompanhamento e de pedido de cura. Esse combate necessário mostra justamente o quanto a dimensão de uma equipe de oração é importante.
3) A tentação de pensar que se possui um poder, é frequente também em alguns médicos, o que é compreensível, dado o fato de já terem obtido a cura ou libertação de várias pessoas. A pessoa doente está em situação de vulnerabilidade, o que deve sempre exigir de quem ajuda e cuida uma atitude de serviço, abnegação e profunda humildade, a fim de dar a glória devida somente ao Senhor. O Dr. Ambroise Paré sempre repetia: “Eu tratei, mas foi Deus quem curou!” 9.
4) A tentação afetivo-emocional, especialmente quando o percurso de acompanhamento se estende ao longo do tempo. Então, pode se criar entre o doente e aquele que guia a oração uma forma de dependência afetiva que pode complicar e interferir no processo de cura.
As doenças do espírito que o Senhor sempre quer libertar
Jean Pliyia 10 pôde constatar:
“A maioria das pessoas não recebe a cura porque recusa perdoar e por apego a práticas idolátricas como o espiritismo, a vidência, a adivinhação, o esoterismo, o ocultismo, o fetichismo, a astrologia, a meditação transcendental, a nova era. A vontade do doente, suas decisões, suas escolhas negativas podem ser obstáculos à sua cura, pois Deus respeita nossa liberdade. O doente, portanto, tem um papel ativo a desempenhar, uma resposta de fé a dar ao convite de Jesus.” 11
O anúncio do Evangelho consiste em “discernir o que é agradável ao Senhor e não participar das obras infrutíferas das trevas; pelo contrário, condená-las abertamente” (cf. Ef 5,10-11). Somente o Espírito Santo é quem dá a cura: fazendo crescer a pessoa no amor e na vontade de Deus, na unidade com os outros ao seu redor e gerando frutos de paz, de alegria e de vida nova. Pois a cura que Jesus quer dar sempre vem pela graça do Espírito Santo, em vista do restabelecimento integral, de todas as dimensões da pessoa, em seu corpo, sua alma e seu espírito. O Cardeal R. Cantalamessa explica que existem doenças do espírito, entre as quais ele destaca três especialmente atuais e modernas:
“Devemos nomear nossas doenças. Comecemos pela doença da inteligência. Em seguida, descobriremos com surpresa que somos todos doentes ‘mentais’. A pior doença não é para nós a loucura. Esta é uma doença terrível que não devemos desejar a ninguém, mas em comparação com certas doenças mentais, ela é no mínimo ‘inocente’.
1) A incredulidade: A nossa doença mental chama-se incredulidade. São Paulo escreveu: ‘Esses incrédulos, os quais o deus deste mundo obscureceu a inteligência, a fim de que não vejam brilhar a Luz do Evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus’ (2 Cor 4,4). O espírito incrédulo é um espírito fechado, o pensamento que só vê este mundo e acredita saber tudo. A incredulidade é uma atrofia mental, uma incapacidade de considerar um pensamento acima do nosso pensamento. Kierkegaard disse: ‘O ato supremo que a razão humana pode realizar é reconhecer que há algo que a ultrapassa.’ E é justamente esse salto que muitos se recusam a dar. Pensam estar defendendo os direitos da razão e não percebem que a estão humilhando e ofendendo ao negar-lhe essa capacidade suprema de se transcender e se projetar além de si mesma.
2) A idolatria: Outra doença terrível da nossa inteligência é a idolatria. É tomar a criatura pelo Criador, colocar qualquer coisa no lugar de Deus. É manter ‘a verdade prisioneira da injustiça’ (Rm 1,18b). A verdade é que Deus é Deus; Ele é o Criador e nós as criaturas. A idolatria é o inverso: o homem não aceita Deus e se faz seu próprio deus. Ele se torna o oleiro e Deus o vaso que molda a seu bel-prazer. É ele quem dispõe de Deus e não o contrário. É uma verdadeira doença do espírito: ‘Seu coração insensato ficou nas trevas. Jactando-se de possuir a sabedoria tornaram-se tolos’ (Rm 1,21b-22), diz Paulo àqueles que se entregam à idolatria. A tolice mais do que a loucura é a verdadeira doença do nosso espírito.”
3) A superstição: Doença que se espalha em todas as áreas, ela se chama superstição. O recurso a magos, feiticeiros, adivinhos, ao ocultismo, ao espiritismo — isso também é uma doença do espírito. Está escrito na Bíblia: ‘Que em teu meio não se encontre alguém que queime seu filho ou sua filha, nem quem faça presságio, oráculo, adivinhação ou magia, ou que pratique encantamentos, que interrogue espíritos, ou adivinhos, ou ainda que invoque mortos; pois quem pratica essas coisas é abominável ao Senhor, e é por causa dessas abominações que o Senhor teu Deus as desalojarás em teu favor’ (Dt 18,10-12). E em Isaías, podemos ler esta terrível profecia: ‘Tu, Senhor, rejeitaste teu povo, a casa de Jacó, porque ele desde os tempos antigos está cheio de adivinhos’ (Is 2,6).” 12
Que por meio dessas reflexões o Senhor nos ajude a nos conhecermos verdadeiramente e em profundidade, sem que sejamos obrigados a fugir da verdade sobre nós mesmos, mas, ao contrário, acolhendo quem somos à luz do olhar de Cristo. O aforismo grego “conhece-te a ti mesmo” 13 refere-se à questão do cuidado (epimeleia) que se deve ter consigo mesmo. Mas como cuidar de si, se não nos conhecemos? A ignorância de si mesmo torna impossível o “justo cuidado de si”. Contudo, “tornar-me aquilo que sou” é possível por meio do olhar de Amor de Cristo, que revela a cada um o que se é, pois Ele “vê” verdadeiramente cada pessoa em sua totalidade.
“Agora vemos em espelho e de maneira confusa, mas depois veremos face a face. Agora meu conhecimento é limitado, mas, depois, conhecerei como sou conhecido.” (1 Cor 13, 12)
Fonte:
1 Cardeal Ratzinger, Congregação para Doutrina da Fé. Instrução sobre a oração para obter a cura, Disposições disciplinares, Art. 7 – § 1, 14 de setembro de 2000.
2 Papa Bento XVI, Angelus, Roma,14 de outubro de 2007.
3 Santa Teresa de Jesus, Caminho da Perfeição, cap. 28,12. Ed. Vozes, p. 132.
4 Papa Leão XIV, Audiência Geral, 18 de junho de 2025.
5 Cf. Unção e pastoral dos Enfermos, n. 3, Ritual Romano. Conferência Episcopal Portuguesa. 2ª ed., p. 18.
6 Cardeal Raniero Cantalamessa, La force guérissante de L’Esprit Saint (A força curadora do Espírito Santo), na obra coletiva Le ministère de guérison (O ministério de cura), Ed. Pneumathèque-EDB, 1996, p. 146.
7 Pe. Emiliano Tardif, Sacrements et guérison (Sacramentos e cura), na obra coletiva Le ministère de guérison (O ministério de cura), Ed. Pneumathèque- EDB, 1996, p. 17-18.
8 Jean Pliya, Charismes et guérison (Carismas e cura), na obra coletiva Le ministère de guérison (O ministério de cura), Ed. Pneumathèque-EDB, 1996, p. 53.
9 Jean-Michel Delacomptée, Ambroise Paré, La main savante (Ambroise Paré: a mão da sabedoria). Ed. Gallimard, 2007, p. 166-167. Ambroise Paré (1510- 1590) foi um cirurgião francês. Introduziu várias inovações na prática médica.
10 Jean Pliya foi pai de família e professor, que exerceu um ministério de libertação na África, no Benin, 1931-2015.
11 Jean Pliya, Charismes et guérison (Carismas e cura), na obra coletiva Le ministère de guérison (O ministério de cura), Ed. Pneumathèque EDB, 1996, p. 53-54.
12 Cardeal Raniero Cantalamessa, La force guérissante de L’Esprit Saint (A força curadora do Espírito Santo), na obra coletiva Le ministère de guérison (O ministério de cura), Ed. Pneumathèque-EDB, 1996, p. 150-153.
13 Famoso aforismo grego escrito no pórtico de entrada do templo do deus Apolo, em Delfos na Grécia, no século IV a.C. De autoria desconhecida, o termo “conhece-te a ti mesmo” tornou-se a base da busca do conhecimento para o filósofo Sócrates.