A Igreja precisa de pastores, pastores que guiem o povo de Deus conforme a sua vontade, conforme o seu coração. Na aliança eterna de Deus com os homens, desde o Antigo Testamento, sempre houve a promessa de que o Senhor jamais abandonaria o Seu povo.
Na Exortação Apostólica Pós-sinodal “Pastores dabo Vobis” (Dar-vos-ei pastores), de 1992, São João Paulo II fala sobre a firme esperança de que “nunca faltarão completamente na Igreja os ministros sagrados […] Apesar de se verificar escassez de clero em muitas regiões”, isto porque “a ação do Pai [fonte de toda vocação] jamais cessará na Igreja” ¹. De fato, Jesus, que é o Bom Pastor, também disse: “Eis que estarei convosco todos os dias até os confins do mundo” (cf. Mt 28,20). No documento, o Papa continua dizendo que “a primeira resposta que a Igreja dá, consiste num ato de confiança total no Espírito Santo” ². A graça do sacerdócio, como resposta a essa promessa, é a certeza de que, vivendo unidos à Igreja, jamais nos faltará pastos verdejantes e uma vida em abundância (cf. Sl 21; Jo 10, 10) nesta peregrinação terrestre, porque sempre haverão pastores segundo o coração de Jesus. Além disso, todas a ovelhas dispersas haverão de ser reunidas e então haverá um só rebanho e um só pastor (cf. Jo 10,16).
Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Ut elit tellus, luctus nec ullamcorper mattis, pulvinar dapibus leo.
O Senhor diz: “Dar-vos-ei pastores segundo o Meu coração” (Jr 3, 15), ou seja, não quaisquer pastores, mas pastores que estão unidos ao coração de Deus e que vivem a verdadeira identidade do ministro ordenado. A cada dia 4 de agosto a Igreja celebra a memória de São João Maria Vianney, grande santo francês do século XVIII e XIX que foi proclamado pela Igreja padroeiro de todos os vigários, e o seu testemunho de um sacerdócio profundo e doado ensina e inspira muitos até hoje na compreensão do que realmente é um sacerdote para o mundo. É o Santo Cura d’Ars, como ficou conhecido, que diz: “O Sacerdócio é o amor do Coração de Jesus”³.
O sacerdote é constituído para agir na pessoa de Cristo Cabeça da Igreja, ou seja, seu ministério de santificar, ensinar e pastorear surge a partir da missão do próprio Cristo. Cristo é o verdadeiro e único sacerdote, que ofereceu de uma vez por todas uma oblação perfeita, o sacrifício da cruz, para santificar sua Igreja (cf. Hb 10). Unida a Ele, a Igreja que é o Seu corpo, recebe a graça de ser um verdadeiro povo sacerdotal. Na “Pastores dabo Vobis”, São João Paulo II diz:
“Para o serviço deste sacerdócio universal da Nova Aliança, Jesus chama a Si, no decurso da sua missão terrena, alguns discípulos (cf. Lc 10, 1-12) e, com um mandato específico e autorizado, chama e constitui os Doze, para que ‘estivessem com Ele, e para os enviar a pregar, e para que tivessem o poder de expulsar os demônios’ (Mc 3, 14-15).”⁴ E ainda: “E como ‘o Filho nada pode fazer por Si mesmo’ (Jo 5, 19), pois a doutrina que prega não é Dele mas Daquele que O enviou (cf. Jo 7, 16), assim também Cristo diz aos apóstolos: ‘sem Mim nada podereis fazer’ (Jo 15, 5): a sua missão não é deles, mas é a própria missão de Jesus.”⁵
Foi assim que ao longo dos séculos estes ministros ordenados carregaram, de geração em geração, a missão de Cristo. A caridade pastoral de Cristo é o princípio que orienta toda a vida espiritual do presbítero⁶. As atitudes e os comportamentos de Jesus são uma ininterrupta manifestação da sua caridade: “Sente compaixão pelas multidões porque estão cansadas e esgotadas como ovelhas sem pastor (cf. Mt 9, 35-36); procura as dispersas e tresmalhadas (cf. Mt 18, 12-14) e festeja o tê-las reencontrado, recolhe-as e defende-as, conhece-as e as chama uma a uma pelo seu nome (cf. Jo 10, 3), condu-las aos pastos verdejantes e às águas refrescantes (cf. Sl 22), para elas põe a mesa, alimentando-as com a Sua própria vida.” ⁷
Daí entende-se que está na base da identidade sacerdotal este coração de compaixão, este amor ardente pelo povo de Deus, um amor que implica necessariamente o dom de si. O Sacerdócio é um dom, um dom do Coração de Jesus. Assim ensina a Igreja de forma profunda e concreta. Concreta porque Jesus nos amou e se entregou por nós com um coração plenamente divino e plenamente humano. Em 1956, o Papa Pio XII publicou uma Carta Encíclica chamada Haurietis Aquas, onde falou acerca da espiritualidade do Sagrado Coração de Jesus, explicando toda uma síntese histórica, dogmática e pastoral que justifica esta devoção. Como o “Sacerdócio é o amor do Coração de Jesus”, é muito interessante observar o que nos diz Pio XII:
“O adorável coração de Jesus Cristo pulsa de amor ao mesmo tempo humano e divino desde que a virgem Maria pronunciou aquela palavra magnânima: ‘Fiat’, e o Verbo de Deus, como nota o Apóstolo, ‘ao entrar no mundo disse: Não quiseste sacrifício nem oferenda, mas me apropriaste um corpo; holocaustos pelo pecado não te agradaram. Então disse: Eis que venho: segundo está escrito de mim no princípio do livro, para cumprir, ó Deus, a tua vontade… Por esta vontade, pois, somos santificados pela oblação do corpo de Cristo feita uma só vez’ (Hb 10,5-7.10). […] Nessas palavras e nessas obras, como diz Gregório Magno, manifesta-se o próprio coração de Deus. ‘Conhece o coração de Deus nas palavras de Deus, para que com mais ardor suspires pelas coisas eternas.’” ⁸
Foi com um coração divino, mas também humano, que Jesus amou até o fim: se compadeceu das multidões, realizou milagres, ensinou a seus discípulos a Palavra da Verdade e finalmente se entregou na cruz por nós. De fato, Cristo é a encarnação da profecia do Pai: “Como poderia eu abandonar-te ó Efraim, entregar-te ó Israel? […] Meu coração se contorce dentro de mim, minhas entranhas comovem-se.” (Os 11, 8)
Este Deus misericordioso, desde toda a eternidade, amou o seu povo e jamais quis abandoná-lo, mesmo diante das infidelidades. É por este mistério que, a partir da encarnação do Verbo, Ele, o Pastor Eterno, quis estabelecer na Igreja pastores que transmitissem este mesmo amor pela entrega de suas vidas unidas a Jesus, na Eucaristia. É no mistério da morte e ressurreição de Cristo que se consuma o mistério da nossa redenção. É propriamente na cruz que Jesus transmite todo o dom do Pai à humanidade. Foi ali, no monte calvário, onde “tudo estava consumado” (cf. Jo 19), com o seu lado aberto na cruz, que a Igreja recebeu a Eucaristia, a Virgem Maria como Mãe e o Sacerdócio.
“Quem poderá descrever dignamente as pulsações do coração divino, índices do seu infinito amor, naqueles momentos em que Ele deu aos homens os seus mais apreciados dons, isto é, a Si mesmo no sacramento da Eucaristia, Sua mãe santíssima, e a participação no ofício sacerdotal? […] emoção que, sem dúvida, foi ainda mais veemente quando Ele “tomou o pão, deu graças, partiu-o e deu-o a eles, dizendo: ‘Isto é Meu corpo, que se dá por vós; fazei isto em memória de mim’. Do mesmo modo tomou o cálice, depois de haver ceado, dizendo: ‘Este cálice é a nova aliança em Meu sangue, que por vós será derramado’” (Lc 22, 19-20). Com razão, pois, pode-se afirmar que a divina Eucaristia, como sacramento que Ele dá aos homens e como sacrifício que Ele mesmo continuamente imola ‘desde o nascente até o poente’ (Ml 1, 11), e também o sacerdócio, são, sem dúvida, dons do sagrado coração de Jesus.” ⁹
A Igreja ensina que a água e o sangue que jorraram do lado aberto de Cristo significam o Batismo e a Eucaristia, respectivamente. O Livro de Vida da Comunidade Sementes do Verbo fala sobre a espiritualidade do Coração de Jesus como uma das marcas do Carisma, que leva todos os membros a buscarem a inspiração do discípulo amado, João, que se reclinou sobre o coração de Jesus na última ceia e depois foi até o fim, aos pés da cruz, ao lado da Virgem Maria, recebendo-a como mãe e contemplando o mistério dos sacramentos que brotam do Coração de Jesus¹⁰. Assim como a Eucaristia, o Sacerdócio, portanto, nasce do Coração de Jesus, este coração que tanto amou o mundo. De fato, o Sacerdócio e a Eucaristia nascem juntos porque fazem parte do mesmo mistério. Na Santa Missa se torna presente o sacrifício de Jesus, onde Ele oferece o seu próprio coração. Este é o maior ato de amor, o qual passa pelas mãos do sacerdote.
Fontes:
1 Papa São João Paulo II, Carta Encíclica Pastores dabo Vobis, Nº 1.
2 Ibidem, Nº 1.
3 Abbé A. Monnin, Espírito do Cura d’Ars, Cap.IX, Catecismo sobre o sacerdote.
4 Papa São João Paulo II, Carta Encíclica Pastores dabo Vobis, Nº 14.
5 Ibidem
6 cf. Ibidem, Nº 23.
7 Ibidem, Nº 22.
8 Papa Pio XII, Carta Encíclica Haurietis Aquas, Nº 30.
9 Ibidem, Nº 34-36.
10 cf. Livro de Vida da Comunidade Sementes do Verbo, art. 21