A Comunidade Sementes do Verbo publica anualmente um “Compêndio” de Lectio Divina, um auxílio para rezar com a Palavra de Deus. Um conteúdo formativo, espiritual e antropológico, para todo o ano.

Compêndio de Lectio Divina 2026

A Lectio Divina é um método de oração e formação muito eficaz para o crescimento espiritual e a intimidade com a Palavra de Deus. A Igreja nos recomenda fazê-la diariamente, com as leituras da liturgia. Através deste Compêndio, a Leitura Orante da Palavra de Deus se torna ainda mais acessível e parte do seu dia a dia.

O nome Compêndio foi inspirado pela palavra de Paulo a Timóteo: “Usa um compêndio das palavras sadias que de mim ouviste… Guarda o precioso depósito, com a ajuda do Espírito Santo que habita em nós!” (2 Tm 1, 13-14). Paulo exorta o seu filho espiritual a anotar no seu compêndio as palavras sadias que dele recebia. “Anota! Anota!” Todos os dias, um missionário da Comunidade Sementes do Verbo partilha a reflexão da Liturgia diária, ajudando você a rezar, meditar e deixar-se conduzir pela Palavra de Deus.

Neste ano franciscano, por ocasião do 800º aniversário da morte de São Francisco de Assis, desejamos transmitir aqui o testemunho desse grande santo que, por um caminho singular, viveu a graça da união profunda com seu Salvador Crucificado. É por meio dos relatos de seus hagiógrafos que hoje podemos conhecer e apreciar os inúmeros detalhes da vida de Francisco. Os santos são, de fato, os melhores intérpretes da Bíblia; eles encarnam nas suas vidas a Palavra de Deus, tornando-a mais atraente do que nunca, permitindo que ela nos fale concretamente. O testemunho de Francisco, que amou a pobreza para seguir Cristo com total dedicação e liberdade, continua sendo também para nós um convite a cultivar a pobreza interior, a fim de crescer na confiança em Deus e vivendo na sobriedade em relação aos bens materiais e espirituais.​

O Tema do Ano de 2026: Curados em Suas Feridas

“Em Suas feridas encontramos a cura” Isaías 53,5

Por que a escolha deste tema Curados em Suas Feridas nestes meses do ano de 2026? Pareceu-nos importante, nestes tempos em que vivemos, anunciar (para alguns) e lembrar (para outros), que Jesus Cristo, Nosso Senhor, está vivo e continua a agir através da Sua Igreja, por via de meios sacramentais (e extra-sacramentais). De fato, pedir ao Senhor em oração, junto com irmãos e irmãs na fé, que Ele cure e liberte, não deveria ser considerado uma realidade marginal, nem que isso esteja em oposição às ciências humanas, ou que seja um apanágio ou um privilégio das seitas.

Ao começar a redação destas linhas sobre a oração de cura, elevo minha ação de graças ao Senhor e manifesto minha gratidão àqueles que foram instrumento de um autêntico ministério de cura. De modo mais pessoal em nossas vidas, agradeço a Deus por George e Victoria Hobson, que nos transmitiram sua experiência e formação no acompanhamento em vista da cura interior e da libertação. Esse casal (da Igreja anglicana-episcopal americana) foram os responsáveis pela nossa formação nos diferentes aspectos da oração de cura interior e de libertação. Ao mesmo tempo em que nós começávamos esse caminho na França, Simone Pacot também recebeu essa formação, que lhe permitiu a publicação do livro: “A evangelização das profundezas” 1.

Como definir a dimensão da cura interior

A oração de cura interior abrange várias facetas que fazem parte da obra divina da santificação, incluindo: perdão, reconciliação, livramento, purificação, libertação, conhecimento e aceitação da própria história. Essa realidade cristã da “oração dos irmãos” foi redescoberta nos grupos de oração e nas comunidades oriundas da Renovação Carismática a partir de 1973, apenas alguns anos após o Concílio Vaticano II. Ao nosso ver, hoje ela mereceria ser ainda mais valorizada e aprofundada, tanto pastoral quanto teologicamente. A maioria dos cristãos engajados que vivem dificuldades no plano da vida interior e relacional recorrem a terapias psicológicas, o que é bom e muitas vezes necessário. Contudo, em alguns casos, essas pessoas acabam por cair num conformismo diante de seus problemas e feridas interiores sem pensar na possibilidade de uma ajuda específica que é a oração de cura interior, por meio da “oração dos irmãos” à escuta do Espírito Santo. Em quantas situações seria recomendável que esses cristãos experimentassem a oração dos irmãos e pedissem a cura, com fé na ação do Senhor, especialmente quando “dois ou três estiverem reunidos em Seu nome” (cf. Mt 18,20).

É verdade que se poderia objetar que Nosso Senhor não curou todos os doentes que encontrou em seu ministério público. Isso também é verdade e sua razão permanece um mistério, mesmo com orações perseverantes. Em todo caso, devemos sempre nos submeter com humildade à boa vontade do Senhor, que conhece a razão profunda. Querer curar-se e livrar-se de todos os males para alcançar a felicidade parece ser uma obsessão comum em nosso tempo moderno. Essa tendência não nos leva a correr o risco de anestesiar nossa consciência e sufocar as questões metafísicas, existenciais e profundas? É o que mostra o livro de Jacqueline Kelen: “Divina ferida: é preciso se curar de tudo?” 2.

A graça de Deus age em quem se abre ao Senhor com fé

Um leproso foi até Jesus, implorando-lhe de joelhos, disse: ‘Se queres, tens o poder de purificar-me’. Movido de compaixão, estendeu a mão, tocou-o e disse-lhe: ‘Eu quero, sê purificado.’” (Mc 1, 40-41)

Os sacramentos, em especial a Eucaristia, a Penitência e a Unção dos Enfermos, são portadores de graças de cura, libertação e reconciliação dadas pelo Senhor. O Papa Bento XVI destacou esse poder libertador de Jesus: “O episódio da mulher atingida por uma hemorragia, ressalta de novo como Jesus veio para libertar o ser humano na sua totalidade.</em> De fato, o milagre realiza-se em duas fases: primeiro dá-se a cura física, mas ela está estreitamente ligada à cura mais profunda, que confere a graça de Deus a quem a Ele se abre com fé. Jesus diz à mulher: ‘Minha filha, a tua fé te salvou. Vai em paz e fica sarada do teu mal!’ (Mc 5,34).” 3

É surpreendente constatar nos Evangelhos a importância que Jesus deu ao Seu ministério de cura e libertação. Nesse sentido, fazemos nossa a visão de George Hobson: “A cura interior não é algo acessório à nossa fé: ela está no centro da obra de Deus em Jesus Cristo.</em> Exercer esse ministério, com poder e eficácia, deveria ser normal para toda pessoa com encargo pastoral, e teria que estar unida ao ensino da Palavra de Deus (de maneira sistemática e prática) e à celebração da Eucaristia ou da Ceia do Senhor.” 4 A perspectiva da “fé que busca compreender” (fides quaerens intellectum) é então iluminada e enriquecida em sua teologia e atividade eclesial pelos carismas dos santos, como São Francisco de Assis, Santa Teresa de Jesus, São João da Cruz e Santa Teresinha do Menino Jesus, que testemunham em suas vidas etapas decisivas de renovação da inteligência da fé.

A experiência de São Francisco de Assis, narrada no início de seu testamento, constitui um comentário existencial e concreto das curas evangélicas: “Assim o Senhor concedeu-me, a mim Frei Francisco, começar a fazer penitência: porque, quando eu vivia no pecado, parecia-me demais amargo ver os leprosos. E foi o próprio Senhor quem me levou para o meio deles, e fui misericordioso para com eles. E afastando-me deles, aquilo que me parecia amargo transformou-se para mim em doçura da alma e do corpo; e depois, detive-me um pouco e saí do século.” 5 O Papa Bento XVI comenta este testemunho: “Naqueles leprosos, que Francisco encontrou quando ainda vivia ‘no pecado’ — como ele mesmo diz — estava presente Jesus; e quando Francisco se aproximou de um deles e, vencendo a própria repugnância, abraçou-o, Jesus curou-o da sua lepra, ou seja do seu orgulho, convertendo-o ao amor de Deus. Eis a vitória de Cristo, que é a nossa cura profunda e a nossa ressurreição para a vida nova!” 6

Curar é salvar

É possível relacionar o verbo “curar” ao verbo “salvar”, pois na hermenêutica do Novo Testamento, na maioria das vezes, essas palavras têm o mesmo significado. O termo grego sozo (“salvar”) significa “salvação que restitui”, que “torna inteiro” (cf. Mc 5,28; Mc 16,16; Lc 8,48; Mt 1,21; 9,22…). “Ela dará à luz um filho, e tu o chamarás com o nome de Jesus; pois ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1,21). Em hebraico, “Yeshua” vem da raiz do verbo “salvar”. “Em quantas bênçãos inimagináveis e tangíveis consiste o resgate que Cristo, ao preço de seu Sangue, nos obteve na Cruz: o resgate de cada pessoa e do povo fiel a Deus!” 7

A cura interior como reconciliação e transfiguração de nossa história

Fala-se também de “cura interior” porque ela trata, em muitos casos e situações, de reconciliação, aceitação e santificação de feridas do passado, às vezes, distantes. A cura que o Senhor opera não consiste em apagar o que aconteceu, nem eliminar seus traumas e feridas. A graça da cura do Senhor vem para redimir, transfigurar e consagrar cada história ferida, transformando-a segundo Sua vontade misericordiosa. Assim, a pessoa que foi mantida submissa e condicionada ao peso de um fardo, de uma paralisia interior ou de uma influência maligna pode, pela oração e pela fé dos irmãos, ser definitivamente curada e liberta desse mal. Ela pode agora encontrar, em sua vida, um sentido profundamente novo para a sua deficiência. Por isso falamos de feridas “transfiguradas ou consagradas”, como a exemplo do Apóstolo Paulo em seu testemunho sobre um “espinho na carne” (cf. 2 Cor 12,7-10).

Oração de cura e discernimento espiritual

Como veremos nestes artigos, a oração pela cura (assim como a oração pela libertação de influências malignas) deve sempre ser vivida através da “oração dos irmãos”, em profunda escuta do Espírito Santo e no exercício dos carismas, especialmente o do “discernimento dos espíritos” (cf. 1 Cor 12,10). O carisma do discernimento dos espíritos é útil para discernir, em quem pede a cura, o que vem de Deus, o que provém da humanidade da pessoa e o que pode vir do demônio. “É evidente que uma oração de cura interior terá mais força se for feita em voz alta e na companhia de um ou mais irmãos e irmãs capazes de amar a pessoa que está recebendo a oração e, assim, ajudá-la.” 8 É importante destacar também o papel central da Palavra de Deus nas Sagradas Escrituras. Ela deve ser um guia e sustento tanto para a oração de cura quanto de libertação.

Os frutos imediatos da cura: glorificação a Deus e serviço aos irmãos

“Dou graças ao Senhor por ter-me curado da necessidade de ser curado!” O autor deste testemunho é Richard Borgman, um pastor evangélico dos Estados Unidos, convertido ao Catolicismo. Ele foi primeiramente salvo de seu ateísmo pelo Senhor durante uma escalada nas montanhas. Sofreu uma queda de 50 metros e sobreviveu. Tornou-se pastor evangélico e missionário na África durante dezessete anos. No decorrer de seu ministério de evangelização na prisão, ele foi tocado pelo testemunho de um padre católico que vivia sua missão no mesmo presídio. Mais tarde, enquanto estava em oração, Richard recebeu uma cura espiritual. Ele rezou assim: “Senhor, mostra-me por que sou tão duro com meus próximos”. Ele testemunhou que viu o Senhor na cruz voltar-se para ele e dizer-lhe: “Tu deves perdoar tua mãe, que te abandonou ao nascer. O teu sofrimento interior desaparecerá”. Essa “revelação” foi o toque final que lhe permitiu abraçar a fé católica.

Que bela revelação interior a graça divina nos permite experimentar quando, afinal, a preocupação com a cura pessoal perde importância em favor do serviço a Deus e aos irmãos e irmãs. A autenticidade da cura e da libertação pedidas com fé na oração será obtida pela graça generosa do Senhor. Ela sempre será confirmada por dois frutos e resultados imediatos: a glorificação a Deus e o serviço aos outros. De fato, é isso que podemos recolher como testemunho nas Escrituras.

É o caso da sogra do Apóstolo Pedro: “Saindo da sinagoga, Jesus entrou na casa de
Simão. A sogra de Simão estava com febre alta, e pediram-lhe por ela. Ele se inclinou para ela, conjurou severamente a febre, e esta a deixou; imediantamente, ela se levantou e se pôs a servi-los.” Outro exemplo é o do paralítico de nascença que era colocado todos os dias à porta do Templo chamada Formosa, para pedir esmolas (cf. At 3, 3-11).

O chamado de Deus através da cura

Foi por meio da cura de um câncer agressivo que o Senhor veio chamar o nosso casal para uma vida comunitária e missionária, há 53 anos. Um ano após o nosso casamento, quando eu estava distante da fé e da vida de Igreja, a graça do Senhor nos alcançou através do testemunho de um casal de vizinhos. Alain e Nicole, que nos apresentaram Jesus Vivo como seu Senhor e Salvador, nos ofereceram uma Bíblia. Mais tarde, contaram-nos como haviam rezado e intercedido por mim: “Não rezamos pela sua cura física, mas pela salvação da sua alma!” O Senhor honrou a oração desse casal. De fato, a conversão que se seguiu transformou profundamente nossas vidas. Fui submetido a pesadas cirurgias e os médicos nos alertaram sobre as consequências inevitáveis. Aqueles procedimentos causariam infecções frequentes ao longo de toda a minha vida.

Hoje posso testemunhar que nunca percebi qualquer alteração na minha saúde e jamais sofri de nenhuma doença infecciosa. Isso é um testemunho de que, quando a mão do Senhor cura uma pessoa, tanto no coração como no corpo, a graça de Deus age com uma qualidade sobrenatural surpreendente.

A pessoa visitada e curada se torna capaz de oferecer sua vida a serviço do Senhor e da Igreja. Para o nosso casal, essa cura realizada pelo Senhor se traduziu na fundação da Comunidade Sementes do Verbo. Ressaltamos, mais uma vez, que em todos os testemunhos autênticos de cura, os dois sinais da graça de Deus se manifestam de forma imediata, através da glorificação a Deus, numa dimensão pública; e do serviço aos irmãos, numa dimensão particular e mais concreta. Neste ano franciscano, por ocasião do 800º aniversário da morte de São Francisco de Assis, desejamos transmitir aqui o testemunho desse grande santo que, por um caminho singular, viveu a graça da união profunda com seu Salvador Crucificado. É por meio dos relatos de seus hagiógrafos que hoje podemos conhecer e apreciar os inúmeros detalhes da vida de Francisco.

A seleção dos comentários sobre a vida, as palavras e os feitos desse grande santo foi feita em relação ao tema deste compêndio: “ Em Suas feridas encontramos a cura ”. Lembremo-nos sempre de que só seremos definitiva e totalmente curados e libertos além dessa vida terrena, no Reino dos Céus. No momento em que terminamos de escrever os artigos deste compêndio, a Igreja vive as primeiras semanas do ministério do sucessor de Pedro: o Papa Leão XIV. Ele começa as catequeses de suas primeiras Audiências Gerais abordando o tema das “ Curas de Jesus ”:

“Com esta catequese, gostaria de orientar nosso olhar para outro aspecto essencial da vida de Jesus: ou seja, Suas Curas. Portanto, convido você a colocar diante do Coração de Cristo suas partes mais dolorosas ou frágeis, aqueles lugares em sua vida onde você se sente parado e bloqueado. Peçamos ao Senhor com confiança que ouça nosso grito e nos cure! ” 9

Diácono Georges Bonneval
Fundador da Comunidade Sementes do Verbo

Adquirir o Compêndio de Lectio Divina : https://livraria.sementesdoverbo.org/

Fontes:

1 Simone Pacot, A Evangelização das Profundezas, nas dimensões psicológica e espiritual. Ed. Santuário, 10ª ed. 2023.

2 Jacqueline Kelen, Ferida Divina: Devemos nos curar de tudo? (Divina ferida: tudo precisa ser curado?). Ed. Pontos Sagesses, 2024.

3 Papa Bento XVI, Angelus, 1 de julho de 2012.

4 George Hobson, A Cura Interior (A cura interior). Ed. Théodote, 2015, p. 16.

5 Fontes Franciscanas (FF 110), citado por Papa Bento XVI no Angelus, de 12 de fevereiro de 2012.

6 Papa Bento XVI, Angelus, 12 de fevereiro de 2012.

7 George Hobson, A Cura Interior (A cura interior). Ed. Siloé, 2015, p. 10-11.

8 George Hobson, A Cura Interior (A cura interior). Ed. Siloé, 2015, p. 41.

 

 

 

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