Dentre os títulos marianos que marcam a piedade popular do povo católico brasileiro, merece destaque na região Norte do país a devoção à Nossa Senhora de Nazaré, vocábulo que reporta à vida simples da Mãe de Jesus, em Nazaré, no seio da Sagrada Família.

O FUNDAMENTO DE TODA DEVOÇÃO MARIANA
“Perto da cruz de Jesus, permaneciam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena. Jesus, então, vendo sua mãe e, perto dela, o discípulo a quem amava, disse à sua mãe: ‘Mulher, eis o teu filho!’ Depois disse ao discípulo: ‘Eis tua mãe!’ E a partir dessa hora, o discípulo a recebeu em sua casa.” (Jo 19, 25-27)
Podemos ver, no memorável diálogo que integra o conjunto das últimas sete palavras pronunciadas por Nosso Senhor Jesus Cristo no calvário, a gênese e o fundamento de toda a devoção mariana, expressa nas diferentes culturas e localidades ao redor do mundo, onde a Mãe de Jesus é venerada sob distintos títulos e honras, por aqueles que recorrem à sua materna intercessão. O Discípulo Amado, São João, aponta para todos aqueles que desejam seguir o Senhor mais de perto, um caminho que é, nas palavras de São Luís Maria Grignion de Montfort, o caminho mais “fácil, curto, perfeito e seguro”1: a devoção filial à Santíssima Virgem Maria.
AS RAÍZES DA DEVOÇÃO A NOSSA SENHORA DE NAZARÉ
Dentre os títulos marianos que marcam a piedade popular do povo católico brasileiro, merece destaque na região Norte do país a devoção à Nossa Senhora de Nazaré, vocábulo que reporta à vida simples da Mãe de Jesus, em Nazaré, no seio da Sagrada Família. Devoção essa que teria surgido a partir de uma célebre aparição e um milagre, ocorridos em Portugal no ano de 1182, e se espalhado consequentemente pelas colônias portuguesas, dentre as quais, o Brasil. Tendo chegado ao país, o culto à Nossa Senhora de Nazaré alcançou o Pará no século XVII através dos religiosos jesuítas, onde se difundiu com o decorrer do tempo. Na capital paraense, a devoção à Virgem ganharia força a partir do achado de uma imagem no ano de 1700, por um “caboclo” chamado Plácido José de Souza, sobre um amontoado de pedras lodosas, às margens do igarapé Murutucú, onde hoje se encontra a Basílica Santuário Nossa Senhora de Nazaré.
Pe. Florêncio Dubois, sacerdote barnabita, descreve em sua obra intitulada “A devoção à Virgem de Nazaré, em Belém do Pará” o que teria se sucedido após este episódio: “Admirado de tão feliz achado, e cheio de contentamento, (Plácido) levou-a para a sua choupana onde a colocou no seu oratório de miriti, junto à imagem de um Crucificado e outras que lá guardava” 2.
Segue ainda a tradicional narrativa, bem presente na memória do povo paraense, dizendo que surpreendentemente: “No dia seguinte, a Santa não amanheceu no santuário de miriti. Procurando sem resultado aqui e ali, o lavrador lembrou-se da floresta e de lá trouxe a Imagem, mas esta sumiu-se várias vezes para regressar à mata […] Julgaram então preferível confiá-la ao governo […] O fato é que, no palácio governativo, a Imagem entrou num dia para sair no outro […] Concluíram todos que a Santa Virgem desejava um oratório no local do encontro.” 3
O extraordinário “retorno da imagem” foi então assumido pela religiosidade popular do povo paraense como verdadeiro sinal do querer divino de que ali, naquele local, a fé de seus filhos fosse manifestada, o que motivou a construção de uma pequena ermida, onde hoje se encontra a Basílica Santuário e, originando assim, em 1793, a festividade do Círio de Nazaré4.
O CÍRIO DE NOSSA SENHORA DE NAZARÉ
Passados mais de 200 anos e após inúmeros relatos de graças alcançadas por intercessão da Virgem de Nazaré, a fé e a devoção a Nossa Senhora “conquistou” em definitivo os corações do povo do Pará, Círio após Círio, e a festividade se tornou a maior manifestação católica no Brasil e, segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)5, uma das maiores concentrações religiosas do planeta, reunindo de uma só vez — no segundo domingo do mês de outubro — mais de dois milhões de pessoas do Estado e de diversas partes do Brasil, nas ruas de Belém.
Desde 2004, o Círio de Nazaré, composto por um total de 11 romarias em 15 dias de programação, está inscrito no Livro das Celebrações do IPHAN, reconhecido como patrimônio cultural imaterial e, desde 2013, declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO. Fato é que, antes mesmo de ser considerado sob a perspectiva histórica, social ou cultural, o Círio de Nazaré carrega uma identidade religiosa. É ocasião de grande manifestação de fé do povo católico paraense, e um evento central na agenda da Arquidiocese de Belém. E é exatamente nesse ponto que, no ano de 2010, a história do Círio se encontra com a história da Comunidade Sementes do Verbo.
O CÍRIO E A COMUNIDADE SEMENTES DO VERBO

Encorajados pelo chamado de Dom Alberto Taveira, arcebispo de Belém-PA e Bispo Garante SdV, os missionários da Comunidade Sementes do Verbo chegaram na capital paraense em setembro de 2010, nas vésperas do Círio de Nazaré, a fim de retomar as atividades de evangelização na Casa de Retiros “Monte Tabor”.
Em meio ao ritmo intenso da Nova Fundação, a Comunidade desejava descobrir, finalmente, o que era o Círio, e como se vivia essa grande festividade. Foram então às ruas, com simplicidade e alegria, unindo-se aos milhares de “romeiros” que vinham de diversos lugares manifestar a própria fé e saudar a “Rainha da Amazônia”. Os comunitários que fizeram parte da equipe fundante da missão em Belém testemunham que, nesse que foi o primeiro de muitos Círios, puderam sentir fortemente a presença de Nossa Senhora de Nazaré, que acolhia o Carisma Sementes do Verbo em solo amazônico, em solo paraense, “a Comunidade desde então passou a fazer parte do Círio, e o Círio passou a fazer parte da nossa vida comunitária e missionária nesse lugar”, diziam.
“A comunidade está na Escola da Virgem Maria e se põe sob a sua proteção […] A Comunidade encoraja todos os seus membros a viver uma intimidade com a Virgem Maria, filha bem amada do Pai, discípula do Filho e Templo do Espírito Santo.” 6
Sendo portadora de um Carisma com espírito mariano, e movida pelo desejo de fazer comunhão com a Igreja local, no decorrer dos anos, a Comunidade procurou envolver-se ativamente no Círio de Nazaré em diversas frentes, antes, durante e depois do grande encontro:
Antes:
Desde os primeiros meses do ano, a Comunidade prepara-se para acolher na Casa “Monte Tabor”, os momentos formativos e retiros de espiritualidade realizados pela equipe de Diretoria da Festa de Nazaré, além de ministrar formações para os grupos de peregrinos que articulam novenas e celebrações nas empresas, hospitais, condomínios, etc., para viver a espiritualidade do Círio, conforme a temática proposta pela Arquidiocese de Belém. Finalmente, nos dias que antecedem as grandes romarias (no segundo final de semana de outubro), a Comunidade Sementes do Verbo participa da Vigília de Adoração que acontece, 48 horas sem interrupção (de quarta à sexta-feira) na Capela Bom Pastor, e por diversas vezes envolve-se no acolhimento dos romeiros que chegam de longas caminhadas pela entrada da cidade, lavandolhes os pés, fazendo curativos, fornecendo alimentação, etc., revivendo assim a experiência do Bom Samaritano que viu, sentiu compaixão e cuidou do homem que encontrou pelo caminho (cf. Lc 10, 33-34).
Durante:
Na manhã do segundo sábado do mês de outubro, a Comunidade participa da tradicional Romaria Fluvial, com a organização de uma grande embarcação para aproximadamente 500 pessoas. A iniciativa, realizada desde o ano de 2012, tem o intuito de evangelizar e viver com profundidade a espiritualidade mariana. Na mesma data, ao cair da tarde, uma multidão de fiéis se prepara para a procissão da Trasladação, e os membros de vida e aliança da Comunidade Sementes do Verbo, além dos participantes das Escolas do Ano Sabático, integram os grupos de Evangelização que vão ao encontro dos promesseiros que acompanham o Círio na corda*, em comunhão com as demais expressões juvenis da Arquidiocese e membros de outras Comunidades Novas. No domingo, a Comunidade se faz presente ainda na Santa Missa na Catedral Metropolitana, e segue a grande romaria do Círio de Nazaré pelas ruas do centro da cidade.
Depois:
Os missionários da Comunidade Sementes do Verbo adotaram o costume de, nas semanas seguintes ao Círio, participar das Celebrações na Basílica Santuário de Nazaré, presididas por bispos de diversas localidades do Brasil, e promover ações de evangelização na Praça Santuário durante o circuito artístico do Círio Musical. Por dois anos consecutivos, o Ministério de Música Sementes do Verbo já realizou shows no Círio Musical, à convite dos organizadores do evento.
DE CÍRIO A CÍRIO
Por isso tudo é que, assim como ocorre de forma mais ampla com a Igreja, o Círio de Nazaré, com o passar dos anos, tornou-se um marco fundamental no planejamento apostólico da Comunidade Sementes do Verbo para a região amazônica e, mais especificamente, para a cidade de Belém. É ocasião certa de evangelização, de alcançar os corações que ao menos nesse tempo se abrem à visita de Deus, por intermédio de Nossa Senhora de Nazaré.
Se por um lado, o Cristo na Cruz entrega-nos Maria dizendo-nos: “Eis aí a tua mãe” (cf. Jo 19, 27), por outro, ela aponta sempre para o Seu Filho, indicando-nos o caminho da vida: “Fazei tudo o que Ele vos disser!” (Jo 2, 5). No Círio, todos os olhares se voltam à Nossa Senhora, e para o Menino que vem em seus braços. E é nesse encontro marcado que o povo de Deus, trazendo preces, flores e amores à Virgem, volta para casa carregando novas alegrias e esperanças… para viver de fé, até o próximo mês de Outubro e por toda a vida.
*Um dos mais importantes ícones que marca as procissões do Círio
de Nazaré é a presença de uma corda com cerca de 400 metros de
comprimento, que durante o trajeto é conduzida por milhares de
fiéis em um sinal de esforço, sacrifício e devoção. Além do sentido
espiritual, a corda tem uma finalidade prática: é ela quem dá o
“ritmo” da procissão, pois, estando sempre atrelada à berlinda de
vidro onde é situada a imagem da Virgem de Nazaré, ao passo que os
fiéis caminham puxando-a, a romaria avança em seu trajeto.
1 Luís Maria Grignion de Montfort. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. 41ª ed. Petrópolis: Vozes, 2012. Capítulo V, Artigo V, número 152, p. 147.
2 DUBOIS, Pe. Florêncio. (1953), A devoção à Virgem de Nazaré, em Belém do Pará. Belém: [s.n.], p. 42.
3 Ibidem, p. 46.
4 COLENY, Fabrício. Círio de Nazaré: Histórias. [S. l.], 2020. Disponível em: https://ciriodenazare.com.br/cirio/historias. Acesso em: 23 mar. 2021.
5 IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Círio de Nazaré. Rio de Janeiro: IPHAN, 2006. (Dossiê IPHAN, 1).
6 Livro de Vida SdV, nº 23.
Por: Padre João Batista e Irmã Teresinha