Toda a vida de Jesus foi acompanhada de combates espirituais importantes. Desde o início da Sua vida, a violenta ameaça de Herodes pesava sobre Ele. Após o batismo, Jesus foi conduzido ao deserto “pelo Espírito” (cf. Mc 1,12), para viver um combate espiritual singular. Em seguida, Ele teve que enfrentar o Adversário, o diabo, desde o início do seu ministério público, até ao combate supremo no Getsêmani e no Calvário. Nós, como servos que somos, não estamos acima do Mestre, por isso, a Igreja de Cristo através de cada um de nós deve aceitar ter que viver passagens estreitas e tribulações por causa do Reino.

O combate a enfrentar é interior
Orígenes de Alexandria (Egito), grande teólogo do século III, reconhecido como o “pai da exegese bíblica”, na origem da interpretação segundo os quatro sentidos das Escrituras e da Lectio Divina praticada nos mosteiros, recomenda: “Preciso repetir-te quais são essas guerras e combates que nos esperam após o batismo? […] Procurarias ao redor qual caminho tomar: limita tua busca a ti mesmo! Em ti está o combate que deverás travar, dentro de ti está o edifício da maldade que precisa ser derrubado; teu inimigo sai do fundo do teu coração. Não sou eu quem diz isso, mas Cristo: ‘Pois é do coração que procedem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as impurezas, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfêmias’ (Mt 15,19).” 1
Mais próximo de nós, São João Paulo II recomenda a aceitar esse mesmo combate espiritual como um caminho necessário e indispensável rumo à santidade:
“Muitas vezes a tradição viu representado este combate espiritual na luta de Jacó a contas com o mistério de Deus, que ele afronta para ter acesso à sua bênção e à sua visão (cf. Gn 32,23-31). Neste episódio dos primórdios da história bíblica, as pessoas consagradas podem ler o símbolo do empenhamento ascético de que têm necessidade para dilatar o coração e abri-lo ao acolhimento do Senhor e dos irmãos.” 2 De maneira realista, não podemos imaginar uma vida sem combate, seria pura ilusão. Para cada um de nós há uma medida necessária, quer aceitemos ou não, pois nossa vida carrega em si um combate: “Esta vida é apenas um combate contra a morte” 3, como afirmou Santo Agostinho. Neste campo, não confundamos tranquilidade e instalação com a paz profunda que vem do Senhor.
A busca por tranquilidade, ainda que legítima, muitas vezes se assemelha a uma procura de conforto pessoal. Ela pode rapidamente tornar-se egocêntrica. As diversas correntes atuais da Nova Era, New Age, traz várias tendências para se alcançar esse bem-estar interior. Em busca de bens exteriores, o homem e a mulher de hoje voltam-se cada vez mais para os novos “Eldorados” (lugares “dourados” para se viver) sejam eles interiores, psicológicos e espirituais. No entanto, só começamos a viver verdadeiramente quando nos unimos Àquele que redimiu todos os homens com a Sua morte e quando entregamos nossa vida para nos dedicarmos a serviço dos outros. A verdadeira paz, aquela obtida pelo sacrifício do Salvador na Cruz (cf. Ef 2,14-18), nos reorienta nesta relação com Deus, com os outros e com nós mesmos.
Diferenças entre reação psicológica e combate espiritual
“O que nasceu da carne é carne, o que nasceu do Espírito é espírito.” (Jo 3,6)
Não confundamos, sob o mesmo nome e na mesma realidade, o que é “combate espiritual” do que são as “reações psíquicas, de caráter ou de temperamento”. Ainda que, evidentemente, as fronteiras entre ambas as naturezas sejam muitas vezes tênues. Além disso, nem tudo o que chamamos genericamente de “combate espiritual” o é de fato. Como acontece com todo ser humano, pode tratar-se de contrariedades, oposições, penas, grandes ou pequenas dificuldades, problemas de saúde, questões de ordem psicológica, realidades vividas aqui ou ali. É claro que um desses problemas pode desencadear um verdadeiro combate espiritual.
Nossas tempestades, isto é, as inquietações exageradas e o descontrole emocional não estão a serviço da causa e da obra do Senhor. Elas muitas vezes manifestam nosso amor-próprio. Mesmo que esses males aparentes não sejam capazes de nos tirar os verdadeiros bens, na maioria das vezes, podem nos fazer perder a paz do coração. Vejamos um exemplo. Uma pessoa acaba de declarar seu compromisso com o Senhor de todo o seu coração e com a maior seriedade do mundo. Apenas uma semana depois, de repente, ela manifesta impulsivamente o seu querer exatamente ao contrário. É possível que seja um verdadeiro combate espiritual, mas também pode haver reações de imaturidade, de natureza simplesmente psicológica ou afetiva. Devemos estar atentos a essas reações bruscas e violentas que levam, geralmente sem nenhuma razão profunda, a decisões diferentes daquelas tomadas antes da tempestade. Essas reações precipitadas vêm primeiro da carne, depois o demônio se aproveita delas e as utiliza em benefício próprio. No Espírito que vem de Deus, não há atrasos, nem precipitação, nem desânimo, nem agitação!
“O homem psíquico não aceita o que vem do Espírito de Deus. É loucura para ele; não pode compreender, pois isso deve ser julgado espiritualmente.” (1 Cor 2,14)
Santa Teresa d’Ávila descreve a alma como um “castelo interior” cercado por uma muralha. Os pontos mais fracos da muralha são as portas e nelas devemos colocar vigias. Nosso Adversário tenta passar por essas portas, nossas fragilidades e feridas, justamente porque são os pontos mais vulneráveis da alma. São nesses lugares feridos ou frágeis onde mais frequentemente são gerados os nossos pecados. É à frente dessas portas que devemos colocar nossos anjos da guarda. Guardemos também a vigilância para não cairmos pessoalmente no desânimo.
“Continuarão no meu santuário, encarregados dos serviços de guarda das portas do Templo e farão o serviço no Templo.” (Ez 44,11)
“Aos teus muros chamarás ‘Salvação’ e às suas portas, ‘Louvor’.” (Is 60,18)
“Quero que saibais quão rude é o combate em que me empenho por vós, que assim os seus corações sejam encorajados (no sentido de fortalecidos).” (Cl 2 ,1-2)
Não haverá progresso no caminho espiritual em busca da união com o Senhor sem nossa participação na renúncia e no combate espiritual. Entre as questões humanas que mais frequentemente se tornam pedras de tropeço e motivo de combate, a gestão dos cansaços está quase sempre em primeiro plano.
Há também situações “externas” a nós mesmos, como notícias negativas de membros da família ou de amigos, etc. São eventos que podem se tornar grandes desafios, pois causam combates interiores e relações conflituosas. Os cansaços podem ter naturezas distintas: física, psíquica ou espiritual. São sinalizados através de frases como “Estou cansado”, “Estamos todos cansados ultimamente”. Em muitos casos, a pessoa tem necessidade de atribuir a causa desse cansaço ao chefe, à comunidade, ao superior. É uma forma de vitimização, que pode tornar-se cada vez menos velada. Em todo caso, cabe verificar se o repouso físico é realmente o remédio a aplicar ou se pode se fazer um outro tipo de discernimento da situação. Um cansaço físico pode necessitar de um tempo de repouso após um tempo intenso de trabalho ou de serviço apostólico. Contudo, esquecemos com muita frequência que nosso cansaço (legítimo) pode ser ofertado como um ato de amor no altar do Senhor, em oração durante o ofertório na Eucaristia. Um cansaço de natureza psíquica se reconhece por uma sobrecarga; é sentido como um clima pesado, sem alegria e serenidade, com constantes conflitos relacionais e arranhões rápidos à caridade, cada um se fechando sobre si mesmo e se isolando.
Esse tipo de situação pode se revelar como ocasião de viver um tempo de oração livre no Espírito (pessoal, familiar ou comunitária), para reencontrar e favorecer o espírito de louvor, de ação de graças, de gratidão e saída de si, para realizar novos atos de fé e de amor como uma verdadeira fraternidade. Santo Agostinho destaca a tentação comum dos cristãos que, ao entrarem pelo batismo na Terra Prometida do Reino de Deus, tendem a se acomodar e relaxar.
“Durante a perseguição, é o combate que nos vale a coroa; (cf. 2 Tm 2, 5) durante a paz, é a consciência. Que ninguém, portanto, imagine que lhe falta tempo; é verdade que nem sempre é hora de sofrer, mas é sempre hora de bendizer. E que ninguém se julgue fraco, quando é Deus quem nos dá forças, para que, temendo por si mesmo, não venha a desesperar do divino operário.” 4
Não devemos esquecer que existem “cansaços espirituais” inerentes à nossa missão e à nossa responsabilidade como discípulos de Cristo, como pessoas engajadas na Nova Evangelização. Pode tratar-se também de um fardo de intercessão ou simplesmente de dificuldades comunitárias a depositar no altar ou a oferecer aos pés da Cruz do Senhor, verdadeiro lugar de nosso repouso. Este tipo de cansaço pode comportar ataques e assaltos espirituais, opressões, dúvidas, momentos de aridez interior… O remédio é, então, a oferenda através de atos de fé, como momento oportuno para a intercessão.
“Vinde a mim todos os que estais cansados e sob o do vosso fardo e vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossas almas, pois meu jugo é suave e meu fardo é leve.” (Mt 11, 28-30)
Quanto mais um ministério ou uma comunidade evangeliza, mais terá combates espirituais. O Catecismo da Igreja nos recorda:´“O caminho da perfeição passa pela cruz. Não há santidade sem renúncia e combate espiritual (cf. 2 Tm 4). O progresso espiritual implica a ascese e a mortificação, que conduzem gradualmente a viver na paz e na alegria das bem-aventuranças: ‘Aquele que sobe, nunca mais pára de ir de princípio em princípio, por princípios que não têm fim. Aquele que sobe nunca mais deixa de desejar aquilo que já conhece’.” 5 Queremos destacar aqui um conselho de um pai espiritual: “Lembrem-se de que as boas resoluções não são feitas para serem apenas tomadas; elas são feitas para serem retomadas.”
O combate contra a carne
Todo ser humano é constituído de espírito, alma e corpo. A tensão entre essas partes assumirá a forma de uma
luta entre o “espírito” e a “carne”. Essa luta faz parte da herança do pecado, sendo ele a sua fonte e consequência. “O Senhor permite que nós caiamos, a fim de que a nossa queda nos faça passar da presunção à confiança em Deus, do orgulho ao conhecimento de nós mesmos.” 6
“Quem ama sua vida a perde e quem odeia sua vida neste mundo, guarda-la-á para a vida eterna.” (Jo 12, 25)
“Irmãos, somos devedores não à carne para vivermos segundo a carne. Pois se viverdes segundo a carne, morrereis, mas se pelo Espírito fizerdes morrer as obras do corpo, vivereis.” (Rm 8, 12-13)
Santo Agostinho também sublinha a necessidade de identificar os vícios interiores, que são nossos verdadeiros
adversários carnais: “Com efeito, não há vitória sem combate, nem triunfo sem vitória. Temos inimigos dentro de nós mesmos; se não quisermos perecer com eles, é uma necessidade imperiosa combatê-los sem fraqueza nem descanso. (…) Eles estão sempre conosco, porque se escondem nos recônditos da nossa alma. Os principais vícios são em número de sete, e dessa raça de víboras brotam, como de uma fonte fétida, todas as outras paixões, como muitos ramos venenosos. Seus nomes são: orgulho, avareza, vanglória, ira, inveja, luxúria e ódio.” 7
Um dos meios pelos quais o Inimigo tenta nos derrubar é através da perturbação e pavor que ele suscita ao nos fazer relembrar de nossos pecados. Ele tenta nos precipitar no desespero. Quando a lembrança dos pecados passados ressurgir, pensemos que o conhecimento da nossa fraqueza é inspirado pela graça e pode gerar em nós uma maior humildade, arrependimento e confiança na Bondade divina e na Misericórdia de Deus. Entretanto, se esse pensamento nos leva à inquietação, condenação, tristeza ou remorso, convencendo-nos de que nada mais pode ser feito, que não há mais como esperar pela salvação, devemos reconhecer esse pensamento como um ataque do demônio. Humilhemo-nos, então, e redobremos nossa confiança em Deus. Sempre que nossos pecados passados nos vierem à memória, é bom manter um espírito de arrependimento a respeito deles, isso é o que significa a “compunção”. Que essa memória dos pecados seja cheia de uma confiança sem limites nos méritos da Paixão de Jesus e na Misericórdia do Senhor.
“Confiando em Vossa misericórdia infinita, eu me abandono, Senhor, em Vossas mãos. Fazei de mim o que quiserdes, sede meu único Mestre, renovo toda minha confiança em Vós.” 8
São Bernardo comenta sobre as “duas tristezas” citadas por São Paulo (cf. 2 Cor 7,10):
“A tribulação se levanta de duas maneiras: porque a adversidade entristece o que há de carnal em nós, ou a iniquidade combate o que há de espiritual. Se não houvesse nada de carnal em nós, nenhuma adversidade nos entristeceria, nem mesmo se faria sentir; se não houvesse nada de espiritual, a iniquidade não nos entristeceria, mas antes nos alegraria, como está dito de muitos: ‘Eles se alegram quando fazem o mal e exultam nas coisas abomináveis’ (Pr 2, 14). A tristeza que resulta da adversidade é, portanto, carnal e segundo o mundo; a que provém da iniquidade é espiritual e segundo o Senhor. Uma opera a morte, se faltar a consolação; a outra opera a salvação, se a consolação não faltar (cf. 2 Cor 7,10).” 9
O combate contra o espírito do mundo
“Não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus, a fim de que conheçamos os dons da graça de Deus.” (1 Cor 2,12)
O cuidado com o mundo e a sedução das riquezas sufocam a Palavra em nós, que permanecerá sem fruto (cf. Mt 13,22).
“Não ameis o mundo nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, não está nele o amor do Pai. Porque tudo o que há no mundo – a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e o orgulho da riqueza – não vem do Pai, mas do mundo. Ora, o mundo passa com a sua concupiscência; mas o que faz a vontade de Deus permanece eternamente.” (1 Jo 2,15-17)
“Foi por inveja do diabo que a morte entrou no mundo.” (Sb 2,24)
O diabo é chamado por Jesus de “o Príncipe deste mundo” (cf. Jo 16,11), pois o espírito do mundo é governado por ele. No entanto, esse espírito do mundo não está apenas no mundo exterior: ele também habita em cada um
de nós. No seu ensaio teológico sobre o mal, o Cardeal suíço Charles Journet (1891–1975) interpreta Santo Tomás de Aquino que afirma que o mal não é algo em si mesmo, mas uma privação, a falta de um bem devido. Isso explica como o mal pode “existir” sem “ser”, no sentido de ter sido criado por Deus como uma substância. O Papa Francisco cita a resposta de Santo Agostinho: “A fronteira entre o bem e o mal passa por nosso coração” 10. Journet distingue ainda diferentes formas de mal:
- Mal de natureza: causado por uma desordem na criação, ele perturba o funcionamento ordenado pelo Criador.
- Mal do homem ou mal da culpa, é consequência do pecado, pois a desordem da nossa vontade, ao desobedecer a Deus, repercute na criação, ferindo-nos por ferir a ordem do mundo. “Só nos pervertendo com o mundo poderíamos viver em paz com ele, e impossível é contentar os seus caprinhos”. 11
- Permissão do mal por Deus: Como pode Deus todo-poderoso, embora nunca queira o mal, permitir às vezes que ele exista? Santo Agostinho nos responde: “Deus, soberanamente bom, não permitiria de modo algum a existência de qualquer mal em suas obras, se não fosse poderoso e bom a tal ponto de poder fazer o bem a partir do próprio mal” 12. Em resumo, de todo mal, Deus pode tirar uma graça maior.
Jamais conseguiremos agradar ao espírito deste mundo, ele é inconstante e contraditório. Jesus mesmo declara:
“Veio João, que não come nem bebe, e dizem: ‘Um demónio está nele!’ Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: ‘Eis aí um glutão e beberrão, amigo de publicanos e dos pecadores!’ Mas a sabedoria foi justificada pelas suas obras” (Mt 11,18-19). Na época de Santa Teresinha do Menino Jesus, as carmelitas de Lisieux estavam preocupadas com a ameaça das leis anticlericais que poderiam ser aprovadas no país. Teresinha não evita as questões da atualidade, mas sublinha claramente que o combate é, antes de tudo, espiritual, o verdadeiro triunfo sobre as forças do mal será o da humildade. “Por Ele, permanecei sempre pequeninas.” 13
Não podemos viver em comunidade segundo o espírito do mundo, mas segundo o Espírito do Senhor por meio da sua Palavra. Portanto, prestemos atenção ao espírito que queremos cultivar entre os irmãos e irmãs. Santa Teresa de Jesus escreve para suas irmãs carmelitas, duas palavras bem simples:
“Amor e temor a Deus! É dizer pouco? São dois castelos fortes a partir dos quais se faz guerra ao mundo e aos demônios. Aqueles que de fato amam a Deus amam tudo o que é bom, desejam tudo o que é bom, estimulam tudo o que é bom, louvam tudo o que é bom. Aos bons se unem sempre, favorecendo-os e defendendo-os; não amam senão a verdade e as coisas verdadeiramente dignas de amor.” 14
O combate contra o Adversário
“Senhor, concedei-nos, iniciar com o santo jejum, este tempo de conversão para que, auxiliados pela penitência, sejamos fortalecidos no combate contra o espírito do mal. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, que é Deus, e convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos.” 15
Dois extremos devem ser evitados: por um lado, esquecer que o diabo procura a quem devorar e agir como se ele não existisse, sem vigilância nem proteção espiritual. Por outro lado, vê-lo em toda parte e torná-lo responsável por tudo o que nos acontece. Em ambos os casos, o Adversário de nossas almas se alegra com esses exageros. Ele nos torna seu brinquedo! O diabo exagera sempre, quer sejam situações quer sejam palavras. Assim, ao ceder-lhe espaço, ele age em nós e entre nós por meio dos medos que desperta e reforça. Não nos esqueçamos de que Jesus o chamou de “mentiroso e pai da mentira” (cf. Jo 8, 44). Jamais nos esqueçamos também de que os demônios são apenas criaturas. É certo que, sendo espíritos, são por natureza mais inteligentes e sutis do que nós, mas não tenhamos temor deles como se fossem “deuses”. Devemos considerá los conforme o que realmente são diante de Deus, segundo o que a Palavra de Deus diz e a Igreja nos ensina — e não segundo nossa sensibilidade.
As influências do demônio se exercem habitualmente pela enganação, pela mentira, pela confusão e pela divisão. Contudo, ele não pode se apoderar da livre vontade da pessoa, nem pode penetrar ou sondar o santuário de nossa consciência. Apesar disso, a sutileza e a violência de suas tentações e seduções podem provocar uma inclinação ao pecado.
Não nos enganemos de inimigo
Em um verdadeiro combate espiritual, tenhamos o cuidado de não nos deixarmos confundir pelo verdadeiro inimigo, pois não são nossos irmãos e irmãs, nem seres de carne e sangue contra quem lutamos, mas são os espíritos malignos.
“Finalmente, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder. Revesti a armadura de Deus, para poderdes resistir às insídias do diabo. Pois o nosso combate não é contra o sangue nem contra a carne, mas contra os Principados, contra as Autoridades, contra os Dominadores deste mundo de trevas, contra os Espíritos do Mal que povoam as regiões celestiais. Por isso deveis vestir a armadura de Deus, para poderdes resistir no dia mau e sair firmes de todo o combate. Portanto, ponde-vos de pé e cingi os rins com a verdade e revesti-vos da couraça da justiça e calcai os pés com o zelo para propagar o Evangelho da paz, empunhando sempre o escudo da fé, com o qual podereis extinguir os dardos inflamados do Maligno. E tomai o capacete da Salvação e a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus.” (Ef 6,10-17)
O demônio deseja arrastar todos à ruína, mas não ataca a todos da mesma forma. Utiliza diversos métodos conforme o estado espiritual de cada um:
- Alguns, escravizados pelo pecado, nem pensam em sair de sua escravidão;
- Outros gostariam de sair, mas desanimam diante das dificuldades;
- Outros ainda, acreditando seguir o caminho da virtude, são enganados por sua própria presunção;
- E por fim, alguns que trilharam um profundo caminho espiritual, por presunção, podem cair de forma ainda mais perigosa.
Podemos também constatar que frequentemente o maligno ataca a pessoa ou a comunidade justamente nos dons e carismas que Deus lhes confiou. As ações do Adversário deformam e criam uma caricatura do carisma, apresentando-o como uma perversão, o oposto do dom de Deus. Isso mostra o quanto é necessário rezar e interceder em relação aos chamados e aos carismas confiados por Deus.
“Essa espécie de demônios não é possível expulsá-la senão pela oração e pelo jejum.” (Mt 17,21)
Combater através da conversão e não pela agressão
O Cardeal Raniero Cantalamessa comenta sobre o profeta Elias, quando este se dirigiu ao povo de Israel, após abandonar a fé dos patriarcas para seguir os ídolos: “Até quando mancareis entre dois caminhos? Se Iaweh é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o!” (1 Rs 18,21). Para Jesus: ‘Ninguém pode servir a dois senhores’ (Mt 6,24). Hoje os ídolos não se chamam mais Baal ou Astarté, mas têm nomes comuns: dinheiro, luxo, sexo, mas a substância permanece a mesma. O apelo ao retorno a Deus deve tomar, nos países cristãos, um rumo completamente diferente do da ‘guerra santa’: trata-se de uma guerra interior, ad-intra, e não exterior, adextra; uma luta contra nós mesmos, uma conversão, e não uma agressão.
Essa é a única ideia de guerra santa compatível com o espírito do Evangelho. Ao chamar nossos contemporâneos ao retorno a Deus, devemos nos apoiar em uma convicção que muitos já compartilham: o caminho que estamos seguindo não nos leva à vida, mas à morte. Uma Palavra de Deus no livro de Ezequiel parece escrita para todos que, de lados opostos — do niilismo ocidental ao terrorismo suicida — flertam com a morte e o nada: ‘Por que quereis morrer, casa de Israel?’ (Ez 18,31). Por que esse ‘voluptas moriendi’, esse ‘instinto de morte’?” 16
É também o combate dos pastores e acompanhadores espirituais pela salvação e libertação daqueles que lhes são confiados. Por fim, é o combate de Deus!
“Não temais, não vos deixeis atemorizar diante dessa imensa multidão, pois esta combate não é vossa, mas de Deus.” (2 Cr 20,15)
Este combate não é nosso. Nossa confiança deve chegar ao ponto de um verdadeiro ato de fé. Sabemos que um dia Jesus se revelou como nosso Salvador. E até o fim da vida experimentaremos a necessidade de sermos salvos da nossa miséria, tão profundamente enraizada em nós. É ocasião para cada um de nós confessar, com todo o coração, a nossa total confiança no Senhor. Lembremo-nos sempre que a fonte desse extraordinário dom divino da vitória da luz sobre as trevas, da vida sobre a morte, é o Mistério Pascal. O mistério da morte e Ressurreição de Cristo é a única fonte da qual jorra a Redenção para todo ser humano, para a história e para todo o universo. Único Mistério “de sofrimento e amor” que permite enfrentar e vencer o combate contra o espírito do mal, nosso único escudo diante de toda adversidade. Proclamemos frequentemente o Santo Nome de Jesus, que é o único “nome acima de todo nome, no céu e na terra” (cf. At 4,12). Ele romperá toda opressão maligna, todo espírito de acusação entre os irmãos, todo espírito de depressão e de morte, e nos fará reviver. Invoquemos frequentemente esse Santo Nome e coloquemo-nos sob a proteção do Seu Sangue Redentor.