
“Quando tiverdes elevado o Filho do Homem, então sabereis que Eu Sou.” (Jo 8, 28)
Para os santos, a Cruz é o ápice da comunicação entre Deus e o homem por meio de Jesus. A teologia da Cruz de Cristo deve estar no centro de todas as nossas orações de cura, libertação e intercessão, pois nela estamos no coração da obra de salvação de Cristo, como profetizou tão bem Isaías:
“Ele foi trespassado por causa das nossas transgressões, esmagado por causa das nossas iniquidades. O castigo que havia de trazer-nos a paz, caiu sobre ele, sim, por suas feridas fomos curados.” (Is 53, 5)
Na Primeira Carta de São Pedro, essa profecia realiza-se em Jesus Cristo:
“Por suas feridas fostes curados, pois estáveis desgarrados como ovelhas, mas agora retornastes ao Pastor e guarda de vossas almas.” (1 Pd 2,24-25)
O Apóstolo Paulo lamenta a situação dos discípulos cristãos que não vivem esse mistério espiritual da Cruz e estão cegos por um cristianismo incompleto:
“Pois há muitos dos quais muitas vezes vos disse várias vezes e agora repito, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo: seu fim é a destruição, seu deus é o ventre, sua glória está no que é vergonhoso, seus pensamentos no que está sobre a terra.” (Fl 3, 18-19)
No século XVI, o carmelita espanhol São João da Cruz escreveu:
“O seu Filho, que é a sua Palavra única – e não tem outra – disse-nos tudo ao mesmo tempo nessa Palavra, e nada mais tem a revelar.” 1
Por que buscar revelações particulares e manifestações do divino fora do mistério da Cruz de Nosso Senhor?
Jesus cura e salva pela Cruz
Todos os espíritos e lógicas humanas são desconcertados pelo fato de Cristo tornar-se Rei ao passar pela morte — e morte de um condenado.
“Nós anunciamos Cristo crucificado, que para os judeus, é escândalo, para os gentios é loucura…” (1 Cor 1, 23)
Como acolher e compreender um Messias assim, com uma realeza mergulhada em extrema injustiça, loucura humilhante e realeza crucificada? Para Jesus, a Cruz foi o lugar teológico da manifestação do supremo amor pelo Pai e por todos os homens. Ao morrer na Cruz Ele tornou-se Rei, entregando-se ao Pai pela salvação e cura de toda a humanidade.
Deus reinou pelo lenho da Cruz. Diante de Pilatos, Jesus declarou-se Rei com os sinais da humilhação: um caniço como cetro, uma coroa de espinhos e um manto de púrpura. Seu programa não é vencer o mundo segundo critérios humanos e políticos, mas segundo um Cristo humilhado e indefeso. Como explica o exegeta Jean Zumstein:
“A Palavra da Cruz fez emergir um Deus inesperado. Ela é, fundamentalmente, teologia (…). O evento hermenêutico consiste na dissociação entre a Lei e Deus. Certamente, Cristo foi condenado pela Lei, mas não por Deus. Na verdade, como atesta a retrospectiva pascal, Deus está ao lado do Crucificado. A constatação é clara: Deus se revela na cruz, independentemente da Lei… Para se manifestar, Ele escolhe um caminho totalmente inesperado e absolutamente novo.” 2
A Igreja não poderá estar acima de seu Mestre. Ao longo dos séculos, ela só vencerá se for como Cristo, através da cruz das perseguições, sempre amando e esperando até o fim, mesmo em meio às injúrias e humilhações — até o momento em que essas trevas serão definitivamente vencidas pela luz, na vitória total e definitiva de Cristo.
A Cruz salva. Mas como?
Que paradoxo há em nossa herança e vocabulário cristãos, um instrumento de tortura tornou-se um símbolo de cura, libertação e até mesmo de salvação! Para compreender isso, é importante notar quando Paulo menciona o “mistério da Cruz” ou apenas “a Cruz”, como uma forma abreviada, ele sempre quer dizer: “Cristo crucificado” (1 Cor 1, 23).
Na Primeira Carta aos Coríntios, Paulo é mais claro, apresentando a morte de Jesus na Cruz não apenas como suplício, mas como um evento de “sabedoria e poder de Deus”, como lugar de sua presença salvífica para toda a humanidade e princípio de salvação (cf. 1 Cor 1, 22-31; cf. 1 Cor 2, 1-5). A “ciência da Cruz” ou “theologia Crucis” é esse princípio de salvação (cf. 1 Cor 1, 18). Anos atrás, compreendi melhor o embaraço dos judeus diante do evento de um “Messias crucificado”. Ouvindo uma entrevista de um rabino tudo ficou mais claro. Ele
dizia, em resumo:
“Nós, judeus, não temos problema em aceitar um Messias sofredor… O profeta Isaías o apresenta assim (cf. Is 53). No entanto, nosso problema é com a ideia de um Messias crucificado, pois a cruz, na Lei de Moisés, é símbolo de maldição (cf. Dt 21, 22-23).”
O judeu observante da Lei poderia, portanto, aceitar o sofrimento do Messias e até sua ressurreição — mas não sua morte ignominiosa na Cruz! É justamente nesse ponto que Paulo justifica a salvação, aí está sua genialidade: “Cristo crucificado” torna-se, para ele, o lugar da nossa redenção. Por isso ele afirmará: “Se ainda prego a circuncisão… estaria eliminado o escândalo da cruz!” (Gl 5, 11).
Cristo tornou-se maldição por nós
Essa palavra é citada por Paulo em sua Carta aos Gálatas: “Cristo nos resgatou da maldição da Lei, tornando-se maldição por nós, porque está escrito: ‘Maldito todo aquele que é suspenso ao madeiro’” (Gl 3, 13). Cristo foi tratado pela Lei como “maldito de Deus!”. Para os judeus, trata-se de um escândalo, do nível da blasfêmia, como Paulo reconhece aos coríntios: “Nós anunciamos Cristo crucificado, que para os judeus, é escândalo, para os gentios é loucura” (1 Cor 1, 23). O termo “escândalo” vem do latim da Vulgata de São Jerônimo no século IV, que foi traduzido a partir do termo “skandalon” utilizado por Paulo. O grego “skandalon” significa: “obstáculo ou armadilha colocada no caminho para fazer cair”. Durante a festa anual do Yom Kippur, o “Dia da Expiação” (ou Dia do Perdão), os israelitas se lembram de seus pecados e pedem o perdão de Deus. Deus não apaga a culpa, mas a “cobre” (esse é o sentido de kapar, kippour). É um dos dias mais solenes e observados do ano judaico:
“Feita a expiação do santuário, da Tenda da Reunião e do altar, fará aproximar o bode ainda vivo. Aarão porá ambas as mãos sobre a cabeça do bode e confessará sobre ele todas as faltas dos israelitas, todas as suas transgressões e todos os seus pecados. E depois de tê-los assim posto sobre a cabeça do bode, enviá-lo-á ao deserto, conduzido por um homem preparado para isso, e o bode levará sobre si todas as faltas deles para uma região desolada.”(Lv 16 , 20 -22)
A morte e a Ressurreição de Jesus marcam o Kippur definitivo, o último “Shabat dos shabats”. Os primeiros judeus cristãos, ao reconhecerem Jesus como o Messias, fizeram naturalmente a relação entre a liturgia do Yom Kippur e a morte de Jesus na Cruz. Eles compreenderam a figura do bode expiatório em relação a Jesus, como aquele que levava sobre si os pecados do povo, imagem assumida pelo próprio Deus na pessoa de Jesus crucificado.
O efeito da Cruz de Cristo: a morte do homem velho
A Cruz de Cristo é também o “ lugar” teológico da crucificação do nosso velho homem, como escreve Paulo aos Romanos: “Nosso velho homem foi crucificado com Ele” (Rm 6, 6). O exegeta Jean Zumstein destaca três afirmações na teologia paulina sobre a Cruz:
1) O efeito da Cruz consiste na descontinuidade entre o eu e o mundo;
2) Essa descontinuidade se concretiza primeiro no fato de que “o mundo está crucificado para mim” (Gl 6, 14b). Este mundo, que morre aos meus olhos, é um mundo que se caracteriza por valores morais e religiosos, definido, por exemplo, pela luta de demarcação entre circunciso e incircuncisos, pela separaração entre Israel e as nações. Na Cruz, a concepção do mundo é definitavamente julgada e destruída.
3) O efeito da Cruz também está na morte do eu — o eu crucificado — , que morre na cruz, é o eu movido pela própria glória e pela busca de reconhecimento diante do fórum do mundo 3. A consequência para o Apóstolo é clara: quem se gloria na sua carne não pode ao mesmo tempo se gloriar na Cruz de seu Mestre. O Apóstolo declara que não espera nada deste mundo que passa, ele está “crucificado” para este mundo, que não tem valor algum para ele. Este mundo presente não tem nenhum poder sobre ele nem motivo de tentação, pois “a figura deste mundo passa” (cf. 1 Cor 7, 31).
Na Cruz: a “cátedra de Deus”, o Senhor nos ensina a verdadeira glória
O Papa Francisco declarou sobre isso: “Jesus diz-nos algo de importante no Evangelho (cf. Jo 12, 20-33): que na Cruz veremos a sua glória e a do Pai (cf. Jo 12, 23.28). Mas como é possível que a glória de Deus se manifeste precisamente ali, na cruz? Poder-se-ia pensar que isto acontece na ressurreição, não na cruz, que é uma derrota, um fracasso! Pelo contrário, hoje Jesus, falando da sua paixão, diz: ‘Chegou a hora de o Filho do Homem ser glorificado’ (cf. v. 23). O que nos quer dizer? Quer dizer-nos que a glória, para Deus, não corresponde ao sucesso humano, à fama ou à popularidade; a glória, para Deus, não tem nada de autorreferencial, não é uma exibição grandiosa de poder seguida de aplausos do público. Para Deus, a glória é amar até ao ponto de dar a vida. (…) Irmãos e irmãs, da Cruz, ‘cátedra de Deus’, o Senhor ensina-nos que a verdadeira glória, aquela que nunca tem fim e que nos torna felizes, é feita de dom e perdão. Dom e perdão são a essência da glória de Deus. E são para nós o caminho da vida. Dom e perdão: critérios muito diferentes dos que vemos à nossa volta, e também em nós, quando pensamos na glória como algo a receber e não a dar; como algo a possuir e não a oferecer. Não, a glória mundana passa e não deixa alegria no coração; nem conduz ao bem de todos, mas à divisão, à discórdia, à inveja. Assim, podemos perguntar-nos: qual é a glória que desejo para mim, para a minha vida, que sonho para o meu futuro? (…) Que glória quero eu para mim? Pois recordemos que, quando doamos e perdoamos, a glória de Deus resplandece em nós. Precisamente nisto: quando doamos e perdoamos.” 4
A ciência da Cruz e suas consequências práticas em nossas vidas
A palavra da Cruz tem um alcance soteriológico, isto é, não apenas anuncia e apresenta a salvação da humanidade, mas é também seu princípio e sua porta, pois “Cristo nos resgatou da maldição da Lei” (Gl 3,13). O verbo “resgatar” (tradução do grego exagorazein) especifica que a salvação concedida — que resume toda cura e libertação das forças alienantes (inclusive as da Lei)
— aconteceu no evento da Cruz de Nosso Senhor. “Paulo e Marcos são os únicos a defender uma teologia consequente da cruz. (…) Há na teologia de Paulo e de Marcos essa extrema exigência: Deus se dá a conhecer no rosto do Crucificado, e essa revelação desconcertante invalida qualquer outro conhecimento que se pudesse ter d’Ele.” 5 “Pela fé recebamos o Espírito prometido” (Gl 3,14).
A referência aqui não é apenas aos judeus cristãos, mas a todos os crentes. A salvação (a promessa, a bênção) ocorre (sem depender da Lei), por meio da fé e do dom do Espírito. Ela tem um alcance universal. Assim, é pela “porta estreita” da Cruz de Cristo que o crente atualiza seu batismo. E “nós, que morremos para o pecado” (cf. Rm 6,2), entramos no “renascimento”, para a uma vida nova em Cristo. Paulo conheceu e viveu essa mudança profunda, pela experiência da Cruz de Cristo: “Sou eu mesmo que pela razão sirvo à lei de Deus e pela carne à lei do pecado. Portanto, não existe mais condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus. A lei do Espírito da vida em Cristo Jesus te libertou da lei do pecado e da morte.” (Rm 7, 25b; 8, 1-2)
São João da Cruz descreveu longamente as purificações passivas como ocasiões de graças, na medida em que elas devem ser relacionadas à obra da Cruz de Jesus em nossas vidas. De fato, mesmo em nossas noites mais duras, “a noite do espírito” será sempre menos severa do que a Agonia de Jesus. Contudo, em sua infinita misericórdia, Deus não está como que “obrigado” a nos poupar. Nós, que ainda somos carnais, acolhamos as pequenas purificações até que possamos suportar um pouco de loucura… a loucura da Cruz. Para Santa Teresa Benedita da Cruz, a Cruz é o lugar da fé, “a nuvem” onde Deus se esconde e se comunica ao mesmo tempo: “Tu és um Deus que se esconde, ó Deus de Israel, o Salvador!” (Is 45,15).
O amor e a dor são uma só coisa
Em 1224, no eremitério de La Verna, Francisco viu o Crucificado na forma de um serafim. Foi a partir desse encontro que ele recebeu os estigmas. “Ele se tornou assim um com Cristo crucificado: um dom que expressa sua íntima identificação com o Senhor” 6. Citamos aqui a obra muito conhecida na América Latina de Inácio Larrañaga (1928-2013), sobre a vida de São Francisco, “O Irmão de Assis”:
“‘Meu Jesus’, disse Francisco, ‘sofreste por mim porque me amaste, e me amaste porque sofreste por mim. Amaste-me gratuitamente. Teu amor não tinha nenhuma utilidade, nenhuma finalidade. Não sofreste para me redimir, mas para me amar e por me amar. Não tens outras razões a não ser as do amor; a razão da sem-razão do amor chama-se ‘gratuidade’. Levaste-me, pelos tempos eternos, como um sonho dourado. Mas, quando chegou a hora, todos os sonhos se desvaneceram e me amaste com a objetividade de uns cravos pretos, umas gotas rubras de sangue. Onde há amor, não há dor. Concebeste-me no amor, em uma eternidade, e me deste à luz na dor em uma tarde escura. (…) ‘Francisco saiu da cabana e começou a gritar desesperadamente: ‘O Amor não é amado, o Amor não é amado’. Gritava para as estrelas, para os ventos, para as solidões, para as imensidades e para as rochas, para as azinheiras, para os falcões, para os homens que dormiam do outro lado das montanhas. Naquela noite, o irmão estava ébrio, delirante, incendiado, torturado pelo Amor. Seu pensamento ardia por completo só de pensar que o Amor não fora amado. Era uma noite profunda. Os segredos da terra tornavam-se manifestos. A criação estava silenciosa e a luz coberta com uma mortalha. Um ar morno, como presságio de tremor de terra, acariciava o bosque.
Podia acontecer qualquer coisa nessa noite: este mundo podia submergir ou outros mundos emergir. (…) ‘Meu Senhor, nesta noite, eu quisera dizer as palavras mais profundas que já foram dadas a uma pessoa pronunciar. Jesus Crucificado, minha terra está preparada para receber qualquer tempestade. Podes descarregar os relâmpagos, centelhas e raios que quiseres. Tomara que eles abram, em minha carne, sulcos de sangue e abismos de dor. Estou disposto. Por um momento, quero ‘ser’ tu Jesus, solta tua torrente de amor pela torrente de meu sangue. Faz de minha carne uma pira de dor, e de meu espírito uma fogueira de amor’.” 7
Que a torrente de Amor que jorra do Coração aberto de Jesus na Cruz atravesse nossos corações nesta Páscoa que se aproxima. Que as virtudes de Sua Santa Ressurreição façam florescer neste mundo e em cada um de nós, frutos novos de eternidade!
Fonte:
1 São João da Cruz, Subida do Monte Carmelo II, 22,3. Ed. Carmelo, 6ª ed., 2005, p. 268.
2 Jean Zumstein, A Cruz como Princípio de Construção em Daniel Marguerat e orgs., Paulo: uma teologia em construção, Ed. Labor et Fides, 2004, p. 312.
3 Jean Zumstein, A Cruz como Princípio de Construção em Daniel Marguerat e orgs., Paulo: uma teologia em construção, Ed. Labor et Fides, 2004, p. 315.
4 Papa Francisco, Angelus, 17 de março de 2024.
5 Daniel Marguerat, Le Dieu des premiers chrétiens (O Deus dos primeiros cristãos), Ed. Labor et Fides, 1990, p. 123-124.
6 Papa Bento XVI, Audiência Geral, 27 de janeiro de 2010.
7 Inácio Larrañaga, O Irmão de Assis. Ed. Paulinas, 20ª edição, 2012, p. 413-414.