
Todos nós somos seres limitados e feridos. Cada um de nós foi marcado na infância por uma (ou várias) ferida(s). Essas feridas imprimiram e registraram um processo que parece irreversível, sensível ou não, consciente ou não. Cada pessoa ficou inevitavelmente marcada por alguma ferida inaugural e originária, em particular aquela que pode ter ocorrido durante a vida intrauterina, a primeira infância e a adolescência, seja uma ferida na dimensão física, psicológica ou espiritual. Feridas surgem de eventos dolorosos que necessariamente se gravaram e foram memorizados em vários níveis do ser, podendo provocar reações psíquicas indesejáveis no momento presente.
“Nós, cristãos, insistimos na proposta de reconhecer o outro, de curar as feridas, de construir pontes, de estreitar laços e de nos ajudarmos ‘a carregar as cargas uns dos outros’ (cf. Gl 6,2).” 1 “Nas estruturas ordinárias, os jovens habitualmente não encontram respostas para as suas preocupações, necessidades, problemas e feridas. A nós, adultos, custa-nos a ouvi-los com paciência, compreender as suas preocupações ou as suas reivindicações, e aprender a falar-lhes na linguagem que eles entendem.” 2
Podemos facilmente lembrar de alguma memória que permaneceu instalada como uma ferida interior dolorosa. Certo homem lembra-se frequentemente da mordida de um cão pastor, quando ele tinha entre cinco e seis anos. O animal surgiu de repente na rua e o atacou. Essa lembrança o traumatizou e, hoje, quarenta anos depois – ele não carrega apenas uma cicatriz no corpo – mas ao reviver esse acidente ainda reage intensamente de maneira física, psicológica e espiritual. Quando um cão se aproxima, surgem nele automaticamente angústia e medo, falta de confiança e dúvida, reações que são disparadas involuntariamente. Essa memória traumática fez com que esse homem desenvolvesse defesas automáticas, um obstáculo e mesmo um bloqueio, uma espécie de muro erguido entre ele e os cães — mas não só com os cães, também com outras pessoas, quando surgem situações inesperadas. Esse acidente foi incorporado na sua memória como um parasita em seu ser, a tal ponto que ele se pergunta se um dia poderá ser definitivamente livre, ou ao menos pacificado. Todos nós somos inevitavelmente confrontados com nossas feridas interiores. Mas nem todos temos a mesma consciência da existência das nossas feridas e das nossas reações a elas. O essencial não é saber se um dia serei curado ou aliviado, mas o importante é conhecer-me sob o olhar de Deus. Devemos tomar consciência de que os verdadeiros obstáculos à nossa vida não são propriamente as feridas, mas sim a maneira como reagimos a elas no momento presente.
Por exemplo, a reação de total esquecimento de uma ferida pode ser desastrosa, pois o vulcão corrói por dentro sem percebermos como. Essa é a tentação mais frequente, colocar uma tampa (ou uma máscara) sobre nossas feridas traumáticas. Eis que, um dia, tudo aquilo que foi reprimido explode em plena luz do dia sem aviso prévio, como uma violenta tempestade em céu azul. Outro perigo diante das feridas é ficar repetindo sempre a mesma história, girando em torno das lamentações com postura de vítima. Essa reação nega a realidade da história vivida, pois condiciona a pessoa a viver centrada continuamente na situação traumática. Também é uma negação da obra salvífica de Cristo na cruz, que assumiu em suas chagas todas as nossas chagas. Esse mecanismo nos faz colocar toda a atenção em nós mesmos, tentando nos salvar por nossos próprios meios interiores. Para nós, adultos, a cura consistirá sempre num trabalho de luto, através das suas diferentes fases e etapas, até alcançar a profundidade de aceitação e abandono das defesas que instalamos ao redor da ferida, como para protegê-la de novas dores. A apresentação desta questão das feridas pelo Papa Francisco (na Exortação Apostólica Amoris Laetitia) merece atenção especial:
“É compreensível que, nas famílias, haja muitas dificuldades, quando um dos seus membros não amadureceu a sua maneira de relacionar-se, porque não curou feridas dalguma etapa da sua vida. A própria infância e a própria adolescência mal vividas são terreno fértil para crises pessoais que acabam por afetar o matrimônio. Se todos fossem pessoas que amadureceram normalmente, as crises seriam menos frequentes e menos dolorosas. A verdade, porém, é que às vezes as pessoas precisam realizar aos quarenta anos um amadurecimento tardio que deveria ter sido alcançado no fim da adolescência. Às vezes ama-se com um amor egocêntrico próprio da criança, fixado numa etapa onde a realidade é distorcida e se vive o capricho de que tudo deva girar à volta do próprio eu. É um amor insaciável, que grita e chora quando não obtém aquilo que deseja. Outras vezes ama-se com um amor fixado na fase da adolescência, caracterizado pelo confronto, a crítica ácida, o hábito de culpar os outros, a lógica do sentimento e da fantasia, onde os outros devem preencher os nossos vazios ou apoiar os nossos caprichos.” 3
Um percurso de cura da sua própria história
“Muitos terminam a sua infância sem nunca terem se sentido amados incondicionalmente, e isto compromete a sua capacidade de confiar e entregar-se. Uma relação mal vivida com os seus pais e irmãos, que nunca foi curada, reaparece e danifica a vida conjugal. Então é preciso fazer um percurso de libertação, que nunca se enfrentou. Quando a relação entre os cônjuges não funciona bem, antes de tomar decisões importantes, convém assegurar-se de que cada um tenha feito este caminho de cura da própria história. Isto exige que se reconheça a necessidade de ser curado, que se peça com insistência a graça de perdoar e perdoar-se, que se aceite ajuda, se procurem motivações positivas e se tente sempre de novo. Cada um deve ser muito sincero consigo mesmo, para reconhecer que o seu modo de viver o amor tem estas imaturidades. Por mais evidente que possa parecer que toda a culpa seja do outro, nunca é possível superar uma crise esperando que apenas o outro mude. É preciso também questionar-se a si mesmo sobre as coisas que poderia pessoalmente amadurecer ou curar para favorecer a superação do conflito.” 4
O que é a ferida interior
A ferida se revela frequentemente por uma falta interior, uma lacuna, uma carência, um vazio. Também podemos dizer que esse vazio é sempre provocado por alguém que se ama. Por exemplo, a ferida deixada por uma pessoa amada que faleceu. Essa falta não é apenas particular e pessoal, mas também é compartilhada com outros (minha mãe, meus irmãos e irmãs…). A constatação da ferida é como um luto. Provoca não apenas sofrimento e dor, mas também a consciência da ausência e do vazio. Aqui, pode-se falar de “ferida de amor como declara a bem-amada do Cântico dos Cânticos “Estou ferida de amor” (Ct 5, 8). Como Santa Catarina escreve:
“A dor e os sofrimentos aumentam na medida do amor; quanto maior a caridade, maior a dor.” 5
Desde a primeira infância, carregamos feridas. Mesmo que nossa família tenha sido, em todos os aspectos, muito boa, é inevitável que um simples acidente de percurso, um sentimento de abandono, uma simples desatenção provoquem o surgimento de um medo paralisante, que gera a marca de uma ferida interior no coração vulnerável da criança. De fato, nosso ser (ferido) torna-se enfraquecido e, portanto, vulnerável. Essa primeira constatação a ser considerada e assumida sobre si mesmo é importante.
As diferentes origens das feridas
Todos os psicólogos concordam que as feridas mais profundas vêm da primeira infância, ocorridas entre anconcepção no ventre materno e os cinco anos de idade (alguns estendem até os dez anos). Frequentemente, essas feridas tocam a identidade da pessoa, justamente por serem vividas nos primeiros anos de vida, que são a gênese de nossa personalidade. Essas feridas são independentes do pecado, pois ocorrem numa fase da infância em que não se pode imputar responsabilidade à criança. Muitas vezes é necessário remontar até a vida intrauterina para detectar certas feridas. Está demonstrado por especialistas que algumas angústias da mãe podem ser transmitidas ao filho em seu ventre por via hormonal e por fatores neuroquímicos. Alguns viveram acontecimentos extremamente dolorosos, outros feridas menos intensas, mas aquilo que fere a alma sempre provém de uma falta ou de um excesso de amor.
Identificam-se duas feridas fundamentais e importantes da primeira infância: o abandono e o sufocamento. Outros psicólogos reconhecem até cinco feridas principais: rejeição, abandono, humilhação, traição e injustiça. Cada pessoa olha o mundo através delas. Estas nascem de um desajuste na distância entre pai/mãe e filho. A criança pequena não tem, como o adulto, a capacidade de tomar a justa distância em relação à situação vivida. A criança ferida será um adulto que olhará para o mundo através dessas situações dolorosas da sua história. Será fundamental abrir-se a um processo de luto, perdão e reconciliação.
As origens das feridas de identidade estão muitas vezes relacionadas a abusos, incestos, sufocamentos, filhos ilegítimos, violências, estupros, bem como questões raciais, escravidão, falta de reconhecimento por parte do pai ou da mãe, palavras de condenação e exclusão, ameaças, ausência do pai, etc. A reconciliação deverá ser considerada em vários níveis: com outras pessoas, com os eventos ocorridos, com o próprio Deus e consigo mesmo. Às vezes é útil formalizar essa decisão de perdão e reconciliação através de uma carta (enviada ou não), a uma pessoa viva (ou falecida).
As feridas ligadas à identidade provocam: vergonhas, baixa estima de si, timidez e culpa excessivas, desconforto consigo mesmo, sentimentos crônicos de rejeição, narcisismo, fusão, confusões, defesas, raivas, medo da alteridade… Entre vários exemplos de feridas profundas da primeira infância que influenciam a identidade e a afetividade, citemos este: um menino nasceu de um casal estável e foi desejado com muita alegria e amor. Havia apenas uma única e pequena tristeza: a mãe queria uma menina. Aos poucos, ela passou a vestir o menino projetando nele seu desejo de uma filha. O pai, por sua vez, mais apagado e ausente, não confirmou muito a masculinidade do filho. A criança cresceu tentando corresponder às expectativas da mãe e agradá-la – ou, ao menos, não desagradar. Tornando-se adulto, esse jovem descobriu uma forte tendência interior a uma identidade homossexual. Certamente favorecida pela carência de proximidade com o pai. Passou a idealizar e buscar frequentemente uma imagem afetuosa, sólida, segura e atenciosa. Esse jovem procurava aquilo que não conseguiu viver durante os anos de infância. É bem possível que, ao longo dos anos, essa criança e jovem tenha encontrado bons e saudáveis substitutos paternos que contribuíram positivamente para a construção de sua personalidade. Um acompanhador espiritual poderá ajudá-lo a interpretar essa paternidade de forma positiva.
A ferida identitária é sempre um risco com duas possibilidades: ou se torna fonte de angústias e lutas, ou se transforma numa fonte de graças para o Reino de Deus. As feridas que surgem mais tarde, durante a adolescência, muitas vezes se enxertam junto às primeiras feridas da infância, durante a fase da formação, da puberdade… A psicologia indica também a existência de feridas “fantasmáticas”, exageradas e imaginárias. É preciso, portanto, ter cuidado para evitar feridas mal definidas ou mal interpretadas.
As diferenças entre pecado e ferida
O pecado, por definição, sempre fere. Mas o que vem primeiro, a ferida ou o pecado? Alguém me fere e essa ferida, ao me fragilizar, também me inclina a pecar. Esse processo contínuo entre ferida e pecado requer a distinção entre ambos: “pecado” e “ferida”. Para nos ajudar, a explicação do Dr. Pascal Ide é interessante:
“Cada caso é particular. Às vezes a ferida é manifestamente anterior à falta e a favoreceu: um pai autoritário precipitou a pessoa na falta de confiança em si mesma (sua ferida), que por sua vez preparou o ódio de si e o desespero (seus pecados). Outras vezes, o pecado serviu de porta de entrada para a ferida.” 6
O Dr. Pascal Ide continua:
“Hoje, as fronteiras entre feridas e pecados estão cada vez mais confusas. O acompanhador espiritual encontra pessoas que são incapazes de distinguir, em suas próprias vidas, sofrimentos e pecados. E a culpa que se mistura, se embaraça.” 7
Para Santo Tomás de Aquino 8, a ferida é uma falta de bem, sofrida involuntariamente. O pecado, por sua vez, é o contrário do bem, cometido voluntariamente. Santo Tomás de Aquino, em seu Comentário ao Evangelho de João, comentando a parábola do bom samaritano, destaca os cuidados prestados ao ferido por meio da aplicação dos remédios do vinho e do azeite (cf. Lc 10, 25-37). Depois, ele esclarece um dado importante: “ “A ferida fundamental e originária é a do pecado original” 9.
O desajuste causado pelo pecado original conferiu às potências inferiores da alma certa independência, subtraindo-as à direção da razão e ao estado de justiça original. Essa brecha nunca poderá ser “totalmente” fechada e a educação jamais será completamente perfeita. Segundo o Doutor dominicano, há na alma quatro faculdades naturais feridas, mas que podem, mesmo feridas, ser sede das virtudes.
• A razão: faculdade de refletir e discernir à luz da Verdade, onde reside a prudência. Quando a inteligência está ferida, perde sua adaptação à verdade — há então um desequilíbrio de ignorância. A graça cura a inteligência para que ela reconheça, a partir das verdades naturais, a credibilidade da mensagem cristã.
• A vontade: sede da justiça. Quando ferida, perde sua adaptação ao bem — há então um desequilíbrio de malícia. A graça permite escolher amar segundo o Espírito Santo.
• A irascibilidade: sede da força, é a faculdade de reagir com firmeza. Quando ferida, perde sua adaptação ao que é difícil — há um desequilíbrio de fraqueza.
• O concupiscível: sede da temperança, é a faculdade do desejo. Quando ferida, perde a moderação ditada pela razão — há um desequilíbrio de concupiscência. A virtude da temperança ajuda a moderar desejos e apetites.
Trata-se, portanto, de quatro feridas infligidas a toda natureza humana por causa do pecado original de nossos primeiros pais. Mas elas não têm a última palavra, nem são uma fatalidade que deva nos autorizar ao desânimo. Ao contrário, nosso ser deverá se deixar despertar e atrair pelos atos contrários a essas feridas, que são as virtudes (humanas e cristãs). Para São Tomás a memória (ou as memórias) está ligada a faculdade da razão na sua parte sensível. Ela permite recomeçar. Mas, quando está despojada de sua capacidade de se adaptar para conservar (somente) o que é bom, surge então um desequilíbrio de impureza (no sentido de misturado ou contaminado); a memória passa a guardar e reter, de fato, o que deveria ser rejeitado. São Tomás enumera quatro meios pelos quais podemos desenvolver a memória. Pensamos que é importante citá-los aqui em função da relação entre feridas e o nosso passado.
“Há quatro condições para o homem aperfeiçoar a sua boa memória.
– A primeira é que aquilo de que quer lembrar-se assuma certas semelhanças convenientes, sem serem contudo, de todo em todo habituais. Nós reparamos sobretudo no que é insólito, no que, por isso, o nosso espírito se detém mais veementemente.
– Em segundo lugar, é preciso que consideremos ordenadamente aquilo que queremos conservar na memória, de modo a passar com facilidade de uma para outra lembrança.
– Terceiro, é preciso ter cuidado em colocar o afeto nas coisas de que quer se lembrar; porque, quanto mais profundamente uma coisa se nos gravar na alma, tanto menos dela se apagará.
– Quarto, havemos de meditar frequentemente naquilo de que queremos ter memória.” 10
São Francisco de Sales declara nesse sentido: “Deus eleva o trono de suas virtudes no teatro de nossas fraquezas” 11.
Os sinais de uma ferida
Na maioria das vezes, a ferida se manifesta por reações defensivas (rápidas, automáticas e sutis), que se desencadeiam em certas situações específicas. São reações de sobrevivência, de autoproteção instintiva, relacionadas ao que a pessoa memorizou ou reprimiu. Podemos distinguir diferentes tipologias dos mecanismos de defesa oriundos das feridas:
• O “violento defensivo”: é como o motorista que, incomodado por alguém no estacionamento, dá um soco no rosto do outro, provocando uma fratura.
• O “irônico”: é aquele que expressa sua raiva de forma “engraçada”, tentando atrair atenção ou manipular a conversa.
• O “provocador”: testa os limites dos outros, provocando ou abusando como uma criança que exaspera os seus pais.
• O “angustiado”: teme ser abandonado, criticado, não reconhecido, desqualificado ou tem medo de faltar e, por isso, reprime suas angústias e medos interiores.
• O “fechado em si mesmo”: se retrai completamente, fechando-se para proteger a si mesmo, demostrando como um grito que já não espera mais nada de ninguém.
• O que “faz demais”: precisa ser o melhor em tudo (na escola, no esporte, no trabalho…), acumulando, provas e demonstrações de valor, para se fazer reconhecer e amar pelos outros, o que é exaustivo para os que o rodeiam.
• O “tímido”: recorre a estratégias para evitar situações delicadas e que lhe inspiram insegurança a partir de limites que ele, de antemão, estabeleceu.
• Para outros, as feridas profundas podem gerar uma sobrecarga similar a um “túmulo interior”.
Contudo, se um dia essas feridas forem acolhidas como a pedagogia de um espinho na carne, poderão gerar humildade, confiança em Deus, misericórdia e perdão de si mesmo — e se tornarão seu caminho de santidade. Não confundamos entre aquilo que pertence às más reações (ligadas ao nosso temperamento), que necessitam de etapas de conversão… e aquilo que provém de reações ligadas às nossas feridas, que precisam ser descobertas, trabalhadas, pacificadas e curadas. A necessidade de colocar em bom lugar as reações às nossas feridas faz parte de nosso caminho vocacional. Esquecer isso seria acreditar que Jesus chama apenas pessoas impecáveis, sem fragilidades nem feridas. Deus chama pecadores e doentes, que necessitarão inevitavelmente de conversão e de cura (cf. Mt 9, 11-13; cf. Mc 2,17; cf. Lc 5,31-32). Mas então, como o Senhor colocará em prática esse processo de cura interior no meu caminho vocacional?
Haverá necessariamente uma gradualidade, ou seja, existirão etapas que permitirão que o terreno de nossa alma seja profundamente purificado. A graça de Deus visitará a nossa história ferida como em camadas. Também haverá, certamente, possíveis ressurgências, tentações, recaídas, e sobretudo “situações analógicas” que o Senhor permitirá para nos dar uma nova chance de a santificação das nossas reações.
As cinco etapas essenciais na cura das feridas
1) A tomada de consciência da origem da minha ferida é um fator importante no caminho do conhecimento de si. Essa consciência permite “autorizar a descida de Jesus” (cf. Mc 2, 1-12) num determinado momento da nossa história.
Uma escolha de morte pode ter sido predisposta e preparada por feridas desde o ventre materno. Segundo os especialistas, uma criança de três anos já possui em si a possibilidade de recusar a vida de maneira relativamente consciente e profunda.
Dizendo isso, recomendo atenção às certezas deterministas que tiram a responsabilidade pessoal, como por exemplo: “Hoje sou uma pessoa colérica porque meu pai bebia e era violento.”
É possível que a história vivida com o pai tenha “influenciado”, “predisposto” ou até mesmo “autorizado” a viver certas tendências em sua vida atual. Contudo, nada o obriga a viver de forma fatalista a mesma realidade, exatamente como seu pai. Ninguém está definitivamente
determinado pela história de seus pais ou de seus antepassados.
2) A irrupção de situações analógicas:
Certa pessoa achava que o problema com o seu passado estava resolvido e curado. De repente, um encontro ou uma situação a coloca novamente na mesma posição dolorosa de outrora. Sua memória ainda está ferida e marcada pelo registro do trauma; por isso, toda vez que essa pessoa se vê confrontada com a mesma experiência de desamor, sua memória automaticamente recorda a ferida inicial. Corre-se risco que a situação desencadeie a angústia e o medo de ser novamente exposta à mesma situação dolorosa. A pessoa começa a ter o reflexo de querer fugir dessa situação a todo custo, para evitar um novo sofrimento. A ansiedade aparece como um medo-pânico que faz a pessoa antecipar o pior. É a intensidade da ansiedade que impõe a tentação de fugir da realidade. A ditadura do emocional emite o seu alerta! É preciso mudar a orientação dessa ansiedade. Ela pode ser uma boa serva para emitir um alerta e nos exortar à vigilância, mas será um péssimo mestre se exige uma mudança precipitada diante da situação. As situações analógicas que o Senhor permite são novas ocasiões de visitação em vista da cura interior.
3) A cura das nossas reações às feridas
O que fere o ser humano? Não apenas o mal, mas também aquilo que é contrário à sua vocação mais profunda. Todas as situações de não amor podem ser fontes de feridas. E podem existir diferentes níveis de reação. Com efeito, uma pessoa pode ser ferida por uma ausência, independentemente de quem está ausente. A criança sofre com a ausência daquele – ou daquela – que deveria lhe oferecer uma presença amorosa. Se o canal necessário para irrigar o amor não funciona, haverá inevitavelmente uma situação dolorosa: uma situação de amor impedido e, portanto, de não amor. Usa-se o termo genérico “ferida”. A palavra “trauma” em português tem origem no termo grego “τραῦμα” (traûma), que significa ferida. Essa palavra grega, por sua vez, deriva do verbo “τίτρωσκω” (títroskō), que significa “fazer um buraco”, “ferir” ou “perfurar”. Assim, a etimologia de “trauma” remete à ideia de uma lesão ou ferimento, tanto físico quanto, por extensão, psicológico. Em resumo, o termo “trauma” em português carrega a noção de uma lesão ou ferida, com raízes na língua grega, onde significava originalmente uma ferida física com efração. A cura interior em Cristo pressupõe – ao contrário de reações passivas e que eximem de responsabilidade – uma cooperação da pessoa, uma abertura responsável à ação curadora e santificadora de Cristo. O importante no processo de cura interior é o trabalho de abertura e correspondência ao Espírito da verdade, movimento interior que pode ser comparado, na psicologia, a uma “tomada de consciência”.
Portanto, mais importante do que identificar a origem do trauma é, na verdade, reconhecer como a pessoa reage ao seu trauma. É fundamental haver uma tomada de consciência clara, com a capacidade de fazer uma leitura objetiva sobre: os modos de reagir, as reações emocionais, o sistema de defesa instalado. E é sobre isso que cada pessoa terá que trabalhar: sobre quais são suas reações “automáticas”, seu “sistema” criado para evitar, por exemplo, uma crise aguda. Tudo isso precisará ser examinado e quebrado, como muralhas de autoproteção que terão de ser destruídas.
4) O processo de cura das reações às feridas passa pelo processo de um trabalho de luto:
Citamos aqui o resultado do trabalho da Dra. Elisabeth Kübler-Ross (1926–2004), médica psiquiatra suíço-americana, pioneira na abordagem dos cuidados paliativos para pessoas em fim de vida. Ela observou que, após o diagnóstico de uma doença terminal, nota-se “cinco fases do luto”. Ela aplicou inicialmente essas etapas a toda forma de perda catastrófica: desemprego, falta de renda, privação de liberdade, a morte de um ente querido, o divórcio, o vício, ou a infertilidade.
As cinco etapas podem se resumir assim:
a) Negação: “Não, isso não! Não é possível, deve haver algum engano.” É uma etapa necessária, pois ajuda a
amortecer o impacto do trauma.
b) Raiva: “Por que eu? Isso não é justo, os outros não têm que passar por isso!” Etapa frequentemente inevitável de ressentimento, que pode acontecer da pessoa se voltar até contra Deus.
c) Negociação: “Sim, mas… deixem-me viver para ver meus filhos, me deem mais alguns anos.” Etapa que permite fazer promessas de mudança a Deus.
d) Depressão: “Estou tão triste, por que me preocupar com tudo isso se vou morrer?” É a etapa de entrada na morte, não se quer mais ver ninguém. É a passagem a um luto assumido, a porta do abandono, do deixar-se ir.
e) Aceitação: “Agora estou pronto, espero meu último suspiro com serenidade.” Etapa em que a pessoa está vazia de sentimentos, não se trata de resignação, mas pelo contrário, trata-se de uma vitória com a entrega e a oferenda de si.
5) O caminho da cura interior passa pelo acompanhamento:
a) De um (ou mais) acompanhadores
Após viver um acompanhamento fiel e regular com um acompanhador, a oração de cura interior consistirá, no momento oportuno, em:
• Depositar os eventos traumáticos aos pés do Senhor;
• Arrepender-se, no sacramento da penitência, de todo pecado pessoal ligado às feridas do passado;
• Pedir ao Senhor que venha conquistar para Si o terreno ferido, consagrando-Lhe a ferida reconhecida;
• Então, o passo da reconciliação se torna possível, especialmente quando a pessoa se abre à graça do perdão. Assim, começa o processo que nos faz reconhecer a culpa, nomeá-la – não para apagá-la, mas “para cobri-la com amor” (cf. 1Pd 4,8). Esse momento se resume na fórmula: “Tu és maior que o teu pecado”. “O passado não é esquecido pura e simplesmente, ele é esquecido no perdão. Toda vez que te recordas do perdão, o passado é esquecido; mas quando esqueces o perdão, o passado então não é mais esquecido e o perdão está perdido.” 12
Finalmente, estamos curados de nossas feridas?
As chagas de Jesus – suas cinco feridas (mãos, pés e lado)
– são elementos essenciais da iconografia, representando seu sofrimento e sacrifício. Jesus ressuscitado não apagou suas santas chagas; ao contrário, Ele as conservou como efígie de seu Amor por todos os homens, memória de nossa Salvação inscrita para sempre em sua carne. Nossas próprias feridas encontrarão a cura de Jesus nesta terra? Serão, ao menos, desinfetadas do mal, pacificadas e consagradas, pois unidas às santas feridas de Jesus, serão fecundadas.
“Uma pérola, não é justamente uma ferida no interior de uma concha? Jesus não cura ao fechar as feridas, mas ao abri-las ao infinito!” 13
Fontes:
1 Papa Francisco, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium sobre A Evangelização no Mundo Atual, n. 67. 2 Ibidem, n. 105. 3 Papa Francisco, Exortação Apostólica Amoris Laetitia sobre o Amor na Família,n. 239. 4 Papa Francisco, Exortação Apostólica Amoris Laetitia sobre o Amor na Família, n. 240. 5 Santa Catarina de Sena, Diálogo, cap. II, 4, Ed. Paulus, 2021, p. 35. 6 Pascal Ide. La personne défaite. Entre blessures et péchés (A pessoa derrotada. Entre feridas e pecados) Article pour les Cahiers d’Edifa sur blessures et guérison, été 1998 (Artigos para os Cadernos de Edifa, sobre feridas e cura), 1998. Disponível em: https://pascalide.fr/la-personne-defaite-entre-blessures-et-peches/ acesso em: 20 de julho de 2025. 7 Pascal Ide. Connaître ses blessures (Conhecer suas feridas), Paris, Ed. Emmanuel, 1992, p. 138. 8 Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, I-II Prima Secundae, Q. 85 a2 e a3. 9 Santo Tomás de Aquino, Comentário ao Evangelho de São João, n. 1119. 10 Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, Questão 49: Das partes singulares e como integrantes da prudência. Secunda Secundae, art. 1. 11 São Francisco de Sales, Tratado do Amor de Deus, Tradução da edição feita pelas religiosas da Visitação d’Annecy, 3ª ed., 1958, p. 12. 12 Søren Kierkegaard, l’Évangile des souffrances (O Evangelho dos sofrimentos), Discursos Edificantes em Diversos Espíritos, 1847. Citado por Jean Louis Chrétien, L’Inoubliable et l’inespéré (O inesquecível e o inesperado), Ed. DDB (Desclée de Brouwer), 1991, p. 111. 13 Cf. Pe. Daniel-Ange, Le pâtre blessé (O pastor ferido). Ed. Fayard, 1986, p. 82.