Escrevo-vos estas palavras em nosso Convento de Sinalunga, onde morou o grande São Bernardino de Sena (1380-1444) que, seguindo os passos de Jesus ao modo de São Francisco de Assis, iniciou e propagou a devoção ao Santíssimo Nome de Jesus, evangelizando toda a Europa.
“Por Suas feridas, fostes curados, pois estáveis desgarrados como ovelhas, mas agora retornastes ao Pastor e guarda das vossas almas!” (cf. 1 Pd 2, 24-25)

Esta inspiração profética foi posteriormente retomada por Santo Inácio de Loyola (1491-1556) e seus companheiros jesuítas, como símbolo não só da família espiritual inaciana, mas sobretudo como uma missão para semear a fé no poder do Nome de Jesus que nos cura e liberta e, assim, levar-nos a viver, de fato, tudo para a maior glória de Deus.
Com um fortíssimo carisma de cura e libertação, São Bernardino não se deixou amedrontar face às perseguições e calúnias. Ele dizia com serenidade: “Deixai Deus obrar!” 1 afirmando que “estas perseguições têm para ele muita utilidade e que, sem elas, sua alma teria, certamente, encontrado-se em grande perigo” 2. Por isso, não cessava de sussurrar e anunciar “o muito doce Nome de Jesus” 3.
“Vai e reconstrói a minha Igreja que está em ruínas” foi o grito inefável da Cruz com o qual São Francisco foi transpassado numa visão, em 1205, diante do Crucifixo de São Damião. Este Crucifixo está presente em todas as nossas capelas para que a nossa única paixão e meta seja: construir e reconstruir a Igreja de Deus, nas almas e nas nações! É diante da Cruz que contemplamos o lado aberto de Cristo morto e ressuscitado. Do Seu lado aberto jorrarão, a cada dia, a paz e o perdão de Assis… essa paz tão desarmada e tão desarmante! Que as nossas casas e missões sejam verdadeiras “Porciúnculas”, onde tudo começa e recomeça e onde entregamos até ao fim, livremente e por amor, as nossas vidas a Deus.
Através da Lectio Divina vivida a cada dia, dos diversos retiros pregados em nossas casas; das Escolas do Ano Sabático, abertas para formar vocações sólidas para a nova evangelização; das Escolas de Ano São Lucas, criadas para restaurar as vidas sacerdotais e consagradas; das missões; das peregrinações; dos Festivais de evangelização e das Casas de Aliança… que possamos ofertar ao Pai “um povo bem-disposto” (cf. Lc 1, 16-17) a trilhar os caminhos da vida espiritual autêntica, profunda, realista e mística.
Que Deus nos ajude a amadurecer, sendo profundamente curados e acompanhados pela teologia da Sua Santa Cruz! Que Nossa Senhora do Monte do Carmo nos faça crescer em nossa vida contemplativa e de oferenda de Amor, unidos até ao fim! Tendo vivido 2024 com os Santos do Carmelo, 2025 com os Santos Dominicanos, que seja agora, em 2026, a vez dos Santos Franciscanos, neste aniversário de 800 anos da morte de São Francisco. Corramos até aos cumes do amor, da ascese e da doação com o “poverello de Assis”.
O franciscano São Boaventura (1217-1274) foi um doutor-tradutor do carisma. Ele soube guardar a unidade da família espiritual e a fidelidade criativa ao carisma fundador de Francisco. Este grande mestre da vida espiritual nos oferece obras importantes como “Os três caminhos da vida espiritual”, “O governo da alma”, “Os vinte e cinco memoriais sobre a vida espiritual”. Ele está para a família franciscana, como Santo Tomás de Aquino está para a família dominicana e para toda a Igreja. Neste sentido, este eminente doutor nos exorta a uma contínua vigilância sobre nós mesmos: “Corta e desata de ti todo o laço exterior, a fim de tua alma poder unir-se totalmente a Deus” 4.
“Seja vigilante em relação à sua conduta em todos os momentos. Defende-te constantemente, com cautela e atenção contra as trapaças e ilusões do antigo inimigo, que ‘transfigurando-se em anjo de luz’ (cf. 2 Cor 11,14), lança frequentemente suas armadilhas e redes em todos os caminhos dos homens, a fim de capturar as almas. Fuja, como o pardal das armadilhas dos caçadores, e seja tão grande a tua pureza, acompanhada pela santa humildade, que nem sequer as redes mais sutis possam envencilhar-te. Delas, com efeito, sairás incólume quanto te tiveres tornado Israel, isto é, ancorado em Deus, fixando continuamente os olhos da tua alma no Senhor, pois o teu guardião não dormirá nem cochilará (cf. Sl 120,4).” 5
1. Suicídios vocacionais ou amadurecimento e santificação das almas?
Quantas almas e quantas vocações se perdem ao cometer verdadeiros suicídios vocacionais por falta de cura e de libertação! Muitas vezes gerando inúmeras reações imaturas além de uma tíbia e inconstante vida de união a Deus. Pôr-se sob a proteção do Sangue de Jesus mas o coração e a alma, eis o caminho seguro para nos unirmos a Deus e com Ele trilharmos o caminho da plenitude da maturidade, com a santidade que diviniza o homem e glorifica a Deus! Graças à intercessão incessante da Igreja e da Comunidade e ao nosso desejo profundo de conversão pessoal podemos sempre voltar humildemente para o caminho da vida batismal, comunitária e consagrada a Deus. Os fracassos, as fraquezas, as dores e mesmo as tentações, quando atravessadas com humildade, amadurecem todas as vocações e as tornam mais fecundas, purificadas, fiéis, autênticas… e inabaláveis (cf. 1 Pd 5, 1-10)! Por isso, neste ano pós-Jubileu da Esperança, continuemos a lutar pela salvação das almas através da oração e dos sacrifícios oferecidos no segredo das nossas vidas doadas até ao fim!
“Atrai-me a Ti, e correrei ao odor de teus perfumes, ó celeste Esposo! Correrei sem desfalecer, até que me introduzas na sala do festim, até que a minha cabeça repouse sobre a tua mão esquerda, e que a tua direita me abrace com ternura e me beijes com o ósculo suavíssimo da tua boca. (cf. Ct 1, 3; 2,4-6;1,1)” 6
2. Este combate não é o teu… Mas de Deus!
Quando nos vemos rodeados de tantos inimigos que parecem gigantes prontos a nos devorar, devemos com humildade e confiança pedir perdão a Deus pelos nossos pecados (cf. 2 Cr 6, 12-42) e nos lançarmos com confiança nos braços do Pai, pois este combate não é (só!!!!) o teu, mas o de Deus (cf. 2 Cr 20, 12)! Somos chamados, pela ascese e pelo jejum, a proclamar a vitória de Deus, aceitando descer na nossa vulnerabilidade e deixando a Deus o encargo de preparar uma armadilha para todos os nossos inimigos. Enquanto isso nós louvaremos, nos renderemos e nos prostraremos diante Dele (cf. 2 Cr 20, 1-30)!
Em nossas casas de Vida e Aliança viveremos estas inúmeras experiências da vitória de Deus sobre nós mesmos e sobre o inimigo de nossas almas, através do Ministério 2 Crônicas 20, com os grupos de oração, a cada quarta-feira, como dia consagrado ao nosso Pai São José, Guardião da Igreja e terror dos demônios!
3. A invencível arma da humildade!
Santa Teresinha do Menino Jesus tinha duas armas invencíveis incessantemente usadas por ela: a oração e o sacrifício. Essas armas são capazes de salvar muito mais do que mil palavras, exercitando-nos a triunfar pela humildade. Que este ano possamos recomendar muitas vezes esta Ladainha da Humildade que o Servo de Deus R. Merry del Val (1865-1930), Secretário de Estado do Papa Pio X, recitava todos os dias, depois da comunhão eucarística.
4. Evangelização e salvação das almas
“Eis sobre as montanhas os pés de um mensageiro, que anuncia: ‘Paz!’ Celebra, Judá, as tuas festas, cumpre os teus votos, porque não tornará a passar por ti Belial, ele foi totalmente destruído. Um destruidor sobe contra ti. Vigia a fortaleza, guarda o caminho, cinge os rins, reúne toda a tua força. Sim, o Senhor, restaura a vinha de Jacó, como a vinha de Israel…O escudo de seus heróis está avermelhado, os guerreiros estão vestidos de escarlate; como o fogo são as ferragens dos carros no dia em que estão colocados em linha de batalha.” (Na 2, 1-4)
Uma floresta inteira que cresce não faz barulho, mas uma árvore que cai faz um estrondo e machuca. Uma floresta que exala seu perfume, espalha ao longe as suas sementes e faz germinar novos brotos é discreta, mas eficaz. Ao contrário, uma floresta que se torna ácida, que em vez de cultivar o mel, destila fel… destrói almas, vocações e nações!
Todos precisam ser guardados e protegidos mas são, sobretudo, os que estão na linha de frente da evangelização e que têm almas ao seu encargo que precisarão de mais vigilância, pois são estes que muitas vezes não se permitirão nem sequer serem bem acompanhados, não conseguindo abrir-se em profundidade e em verdade. Então, face aos inesperados assaltos demoníacos ou crises-etapas não conseguem dar os passos de amadurecimento necessários a cada um de nós, chamados à santidade e à fidelidade. Contudo, devemos nos alegrar profundamente pelos irmãos e irmãs que, em todos os estados de vida, santificamse diariamente e percorrem um verdadeiro caminho de consagração e doação de suas vidas, aceitando com realismo todos os mistérios de uma vida espiritual e humana: gozosos, luminosos, dolorosos e gloriosos. Alegria por aqueles que se permitem trilhar sem pudor nem hipocrisias um verdadeiro caminho de cura e libertação ao longo de toda uma vida e que, justamente por isso, podem tornar-se instrumentos de salvação para tantas almas errantes, que caminham à deriva, clamando por auxílio eficaz.
Deus quer salvar, curar e libertar em cada um de nós esse Jacó obstinado para dar à luz esse Israel que se deixa iluminar e divinizar, dia após dia. Deus quer nos colocar na linha de batalha do combate espiritual para gerar almas e fazer recuar as trevas deste mundo! Sabemos, contudo, que Deus só escolhe pessoas feridas, insuficientes e fracas para a aventura da santidade. Mas ao fazer isso, Seu desejo é que O deixemos nos despojar, como que nos decapando por camadas sucessivas, das ilusões, pretensões e arrogâncias que nos fazem ser e agir de modo autorreferencial e autossuficiente… deixando apenas um toco, de onde brotarão sementes santas (cf. Is 6, 13)! Deus vem nos libertar de nós mesmos e dos inimigos de nossas almas, vem curar-nos, deixando, contudo, aquilo que é bom e necessário para a nossa santificação.
5. A Floresta de Deus: Carvalhos e Terebintos!
Na tradição judaica, os fiéis são comparados a árvores plantadas à beira do rio, elas dão frutos mesmo em tempos de seca (carvalhos, terebintos, azinheiras, murtas, videiras…). O Carvalho, por exemplo, é muitas vezes a árvore mais antiga de uma floresta, com uma vida média entre 500 a 1.000 anos. É também a árvore mais alta de todas, entre 30 a 40 metros. Sua longa vida se apresenta por um aspecto sofrido e envelhecido, caule enrugado e raízes profundas. Quando o Carvalho passa por uma tempestade e recebe fortes pancadas de vento e chuva, seu tronco – que é uma das madeiras mais resistentes do mundo – não se quebra, mas se contorce, enverga e se molda conforme a ação do vento.
Essa árvore tem uma forte resistência às situações da vida e quanto mais se sujeita às intempéries, mais fortalecida sai delas, pois suas raízes se enraízam ainda mais profundamente no solo. A cada tempestade, seu tronco se revigora. A possibilidade dela ser extraída do solo pelos temporais torna-se quase nula. O Carvalho acaba por se fortificar cada vez mais em consequência dos temporais e, assim, vai adquirindo um aspecto desproporcional, exatamente como um ser que tivesse realizado um grande esforço ao longo de sua constituição. Quanto mais forte o vento ou a tempestade investe contra ele, mais forte ele fica, seu tronco torna-se mais firme sem se quebrar. Suas raízes não são profundas por causa dos longos anos de vida, mas sim por causa da violência das tempestades que passam por ele, pois vai procurando aprofundar mais ainda as suas raízes. Seu objetivo é permanecer em pé, sem quebrar, firme e forte. Ao contrário de outras árvores, o carvalho parece ter sido criado por Deus para resistir. Um outro exemplo desse fato é que ele não perde suas folhas no inverno, mas continua frondoso, cheio de vida, mesmo no período mais difícil do ano. Nós precisamos entender que ao sermos atacados por qualquer situação, seja ela uma tempestade, ventos fortes, queimadas, ou mesmo o machado de um lenhador, assim como o Carvalho, devemos estar determinados a não sair da posição em que o Senhor nos plantou. Mesmo que sejamos derrubados, nossas raízes profundas resistirão e tornarão muito difícil arrancar o “toco”, e será justamente desse “toco” que permaneceu, que o Senhor fará brotar sementes santas (cf. Is 6, 13)! Essa é a grande resiliência que leva o Carvalho a brotar e começar a crescer novamente. Por outro lado, sendo da mesma família do Carvalho, o Terebinto é umas das árvores mais fascinantes da natureza. Ele é muito resistente ao inverno, com folhas que não caem com o frio. Ele muda a folhagem somente na primavera.
Essa árvore, por sua vez, não cresce tanto quanto o Carvalho, alcançando 10 metros aproximadamente, porém, o seu perfume pode ser sentido a mais de um quilômetro de distância. Para que isso aconteça ele deve perder parte da sua casca. Quanto maior e mais profunda sua ferida, maior será o perfume exalado pelo Terebinto. Ao perder sua casca, ele também libera uma seiva medicinal que serve como antisséptico e antiinflamatório. O mais interessante é que quanto mais o Terebinto é ferido, mais ele exala perfume e ajuda a curar.
Nós não somos chamados a sermos pessoas com raízes superficiais, sem resistência às situações da vida, pois elas nos aproximam de Deus. As provações servem para nos moldar, ajustar e nos movem a sermos diferentes, mais semelhantes a Deus! Face a algumas tempestades que podem persistir por anos, devemos ser como o Carvalho, com raízes profundas e resistentes; também como o Terebinto, que quanto mais sofre, mais perfuma e cura… Não obstante, tenhamos consciência que quanto mais profética e evangelizadora se torna uma comunidade tanto mais os combates se tornam pérfidos e sutis. Mas, suportemos alegremente, pois “Ele tomou nossas enfermidades e carregou nossas doenças” (Mt 8, 17), Ele nos dá o Seu Sangue redentor para nos salvar e livrar do Mal!
Ir. Maria Sarah
Moderadora Geral da Comunidade Sementes do Verbo