Neste tempo litúrgico do Advento, é um bom momento para orar e meditar sobre a “dimensão escatológica” de nossa esperança cristã. Vamos fazer um percurso com um documento fundamental sobre esse assunto: a Encíclica do Papa Bento XVI “Spe Salvi”, “Salvos na Esperança”, que propõe uma teologia da esperança.

Joseph Ratzinger não é apenas um especialista em teologia da escatologia, ele também é o homem que, como pastor, destacou a importância da escatologia na vida espiritual cristã atual. A escatologia é o que a teologia chama de: “os fins últimos”, e reúne: Morte, Paraíso, Purgatório, Julgamento, Inferno e Ressurreição. Talvez a nossa época precise de uma ênfase especial na escatologia no pensamento cristão em geral? Ou talvez ela esteja sofrendo com equívocos e influências? De fato, essa doutrina escatológica ocupa um lugar central na obra teológica do Papa Bento XVI e tem repercussões importantes para a vida cristã normal. Em 2001, em seu livro “Introdução ao Espírito da Liturgia”, o Cardeal Ratzinger lançou o fundamento de sua teologia escatológica com estas breves palavras: “A história recebe uma luz nova graças à ressurreição e, assim, é entendida como um caminho de esperança, para o qual as imagens nos atraem. Elas são, também por isso, imagens da esperança, que nos comunicam a certeza do mundo que virá, da vinda definitiva de Cristo.” 1 

Na introdução de Spe Salvi, o Papa Bento XVI baseia todo o seu pensamento sobre a esperança, no acontecimento da Ressurreição de Cristo. Ele não vê outro ponto de partida teológico. Na reflexão deste mês, é importante ver claramente o ponto de partida, o fim último que podemos vislumbrar de longe, a fim de viver a verdadeira esperança no presente de nossas vidas. “A redenção é-nos oferecida no sentido que nos foi dada a esperança, uma esperança fidedigna, graças à qual podemos enfrentar o nosso tempo presente: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho.” 2

A esperança viva em Cristo não pode vir de nós mesmos, como vimos claramente nos meses anteriores. Essa Grande Esperança vem somente de um encontro real com o Senhor e da fé no Senhor Vivo e Ressuscitado. No ano passado, Haïm Korsia, o Grande Rabino da França, publicou um livro sobre esperança, “A esperança é violenta”, no qual ele clama por um ressurgimento moral contra a depressão coletiva que, em sua opinião, é uma gangrena da sociedade como um todo.

Minha convicção é de que a esperança exige um esforço considerável. Gosto muito do poema de Apolinário: ‘Como a vida é lenta, e como a esperança é violenta’. Há uma violência na esperança. É preciso ser violento consigo mesmo, no sentido mais verdadeiro da palavra, para ousar ter esperança. É verdade que as pessoas melancólicas geralmente têm uma análise lúcida da situação. Mas a esperança nos ilumina, ela nos permite não basear nossas vidas na tragédia.” 3 Essa firmeza e solidez da esperança são mais necessárias hoje do que nunca. Como também sustenta o Papa Francisco na Bula Jubilar 2025, retomando a imagem da esperança na Carta aos Hebreus: “Como uma âncora segura e firme para a alma” (Hb 6, 19) 4.

Você é conhecido, amado e esperado

Em sua encíclica, Bento XVI dá o exemplo da jovem escrava africana Josefina Bakhita, nascida por volta de 1869 em Darfur, no Sudão. Aos nove anos de idade, ela foi sequestrada por traficantes de escravos, espancada até o sangue, ficou com 144 cicatrizes por toda a vida e foi vendida cinco vezes nos mercados sudaneses. Em 1882, ela foi vendida a um comerciante italiano para o cônsul italiano, um cristão, que retornou à Itália com sua família. Josefina decidiu segui-los até a Itália e foi então que ela descobriu a fé cristã. Em 1890, ela foi batizada e confirmada, e recebeu sua Primeira Comunhão do Patriarca de Veneza.

Ela fez a experiência de um encontro pessoal com o Senhor, que se tornou seu “novo Patrão”. Em 8 de dezembro de 1896, em Verona, fez seus votos na Congregação das Irmãs Canossianas. Josefina Bakhita, a jovem escrava sudanesa, foi proclamada “Padroeira do Sudão” e canonizada pelo Papa João Paulo II no dia 1º de outubro de 2000. O Papa Bento XVI explica a experiência que transformou a vida dessa jovem escrava sudanesa: “Ela era conhecida, amada e esperada; mais ainda, este Patrão tinha enfrentado pessoalmente o destino de ser flagelado e agora estava à espera dela ‘à direita de Deus Pai’. Agora ela tinha ‘esperança’; já não aquela pequena esperança de achar patrões menos cruéis, mas a grande esperança: eu sou definitivamente amada e aconteça o que acontecer, eu sou esperada por este Amor. Assim a minha vida é boa. Mediante o conhecimento desta esperança, ela estava ‘redimida’, já não se sentia escrava, mas uma livre filha de Deus.” 5

A fé é a semente da Vida Verdadeira e Total que existe dentro de nós

Essa esperança, que está se tornando realidade, é bem diferente – diz-nos a encíclica – de uma simples referência a uma perspectiva futura: “A sociedade presente é reconhecida pelos cristãos como uma sociedade imprópria; eles pertencem a uma sociedade nova, rumo à qual caminham e que, na sua peregrinação, é antecipada.” 6 De agora em diante, em Cristo, nos é mostrado quem é o homem e o que ele deve fazer para ser verdadeiramente homem. “Ele indica-nos o caminho, e este caminho é a verdade. Ele mesmo é simultaneamente um e outra, sendo por isso também a vida de que todos nós andamos à procura. Ele indica ainda o caminho para além da morte; só quem tem a possibilidade de fazer isto é um verdadeiro mestre de vida.” 7

O fato de esse futuro existir, muda o nosso presente

A encíclica Spe Salvi cita a Carta aos Hebreus (cf. Hb 11, 1), que dá uma definição de fé, intimamente ligada à virtude da esperança: “A fé é hypostasis das coisas que se esperam; prova das coisas que não se veem”. O Papa Bento XVI traduz como: “a fé é a ‘substância’ das coisas que se esperam; a prova das coisas que não se veem” 8. A encíclica continua com a interpretação de São Tomás de Aquino, que explica da seguinte forma: “A fé é um ‘habitus’, ou seja, uma predisposição constante do espírito, em virtude do qual a vida eterna tem início em nós e a razão é levada a consentir naquilo que não vê. Deste modo, o conceito de ‘substância’ é modificado para significar que pela fé, de forma incoativa – poderíamos dizer ‘em gérmen’ e portanto segundo a ‘substância’ – já estão presentes em nós as coisas que se esperam: a totalidade, a vida verdadeira.” 9

Esses “bens que virão” ainda não são visíveis no mundo externo, mas já os carregamos dentro de nós “como uma realidade inicial e dinâmica”, que nasce internamente mesmo agora, como se estivesse em “germe” em uma “certa percepção desses bens”. A encíclica vai ainda mais longe: “Ela [a fé] atrai o futuro para dentro do presente, de modo que aquele já não é o puro ‘ainda-não’. O fato de este futuro existir, muda o presente; o presente é tocado pela realidade futura, e assim as coisas futuras derramam-se naquelas presentes e as presentes nas futuras.” 10 A explicação do Papa sobre a fé ligada à esperança de bens “melhores e mais estáveis” que estão por vir
baseia-se também em Hebreus 10, 34: “Não só vos compadecestes dos encarcerados, mas aceitastes com alegria a confiscação dos vossos bens (hyparchonton – Vg: bonorum), sabendo que possuís uma riqueza melhor (hyparxin – Vg: substantiam) e imperecível.” 11

Em Cristo, Deus se manifestou. Ele nos comunicou a “substância” dos bens que virão, e “a espera de Deus adquire uma nova certeza” 12.

Será que queremos isso mesmo: viver para sempre?

Atualmente, a questão do lugar da eutanásia ou do suicídio assistido na legislação de diferentes países é uma fonte de debate. Por enquanto, a maioria dos países a proíbe. O motivo subjacente nem sempre é a escolha da morte, mas o fim do sofrimento e da angústia. Nesse sentido, quem gostaria que esta vida atual e dolorosa durasse indefinidamente, eternamente? Seria simplesmente insuportável! “Continuar a viver eternamente – sem fim – parece mais uma condenação do que um dom.” 13 “‘Eterno’ suscita em nós a ideia do interminável, e isto nos amedronta; ‘vida’, faz-nos pensar na existência por nós conhecida, que amamos e não queremos perder.” 14

Bento XVI faz esta pergunta: “Obviamente há uma contradição na nossa atitude, que evoca um conflito interior da nossa mesma existência. Por um lado, não queremos morrer; sobretudo quem nos ama não quer que morramos. Mas, por outro, também não desejamos continuar a existir ilimitadamente, nem a terra foi criada com esta perspectiva. Então, o que é que queremos na realidade?” 15 A encíclica cita a questão de Santo Agostinho, que
também é a questão de Paulo: “Não sabemos o que convém pedir” (Rm 8, 26). Agostinho colocou-se a mesma questão quando escreveu sua Carta a Proba, uma viúva romana rica e mãe de três cônsules: “Há em nós, por assim dizer, uma douta ignorância (docta ignorantia)” 16.

Bento XVI acrescenta: “Não sabemos realmente o que queremos; não conhecemos esta ‘vida verdadeira’; e, no entanto, sabemos que deve existir algo que não conhecemos e para isso nos sentimos impelido.” 17 “Esta ‘coisa’ desconhecida é a verdadeira ‘esperança’ que nos impele e o fato de nos ser desconhecida é, ao mesmo tempo, a causa de todas as ansiedades como também de todos os ímpetos positivos ou destruidores para o mundo autêntico e o homem verdadeiro.” 18

Uma bela definição de eternidade

[A eternidade é como] o instante repleto de satisfação, onde a totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade.” 19 “Seria o instante de mergulhar no oceano do amor infinito, no qual o tempo – o antes e o depois – já não existe. Podemos somente procurar pensar que este instante é a vida em sentido pleno, um incessante mergulhar na vastidão do ser, ao mesmo tempo que ficamos simplesmente inundados pela alegria. Assim o exprime Jesus, no Evangelho de João: ‘Eu hei-de ver-vos de novo; e o vosso coração alegrar-se-á e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria’ (Jo 16, 22).” 20

A experiência da salvação, uma realidade comunitária

Bento XVI denuncia um tipo de “esperança” que se desenvolveu: a do “puro individualismo”: “que teria abandonado o mundo à sua miséria indo refugiar-se numa salvação eterna puramente privada” 21. A descrição dessa falsa esperança é feita na encíclica pelo teólogo Henri de Lubac: “Será que encontrei a alegria? Não! Encontrei a minha alegria. O que é algo terrivelmente diferente. A alegria de Jesus pode ser individual. Pode pertencer a uma só pessoa, e esta está salva. Está em paz agora e para sempre, mas ela só. Esta solidão na alegria não a perturba. Pelo contrário: ela sente-se precisamente a eleita! Na sua bem-aventurança, atravessa as batalhas com uma rosa na mão.” 22 “A mesma Carta aos Hebreus fala de uma ‘cidade’ (cf. 11, 10.16; 12, 22; 13, 14) e, portanto, de uma salvação comunitária.” 23

A encíclica continua: “Esta vida verdadeira, para a qual sempre tendemos, depende do fato de se estar na união existencial com um ‘povo’ e pode realizar-se para cada pessoa somente no âmbito deste ‘nós’. Aquela pressupõe, precisamente, o êxodo da prisão do próprio ‘eu’, pois só na abertura deste sujeito universal é que se abre também o olhar para a fonte da alegria, para o amor em pessoa, para Deus.” 24

Em sua encíclica, Bento XVI explica como, na Idade Média, havia essa aparente contradição entre “o mundo que virá, em germe…” e as exigências da vida no presente: Na época de Agostinho, nos séculos IV e V: “Na consciência comum, os mosteiros eram vistos como os lugares da fuga do mundo (‘contemptus mundi’) e do subtrair-se à responsabilidade pelo mundo na procura da salvação privada.” 25 E Bernardo de Claraval, no século XII: “Com a sua Ordem reformada, trouxe uma multidão de jovens para os mosteiros. Na sua opinião, os monges desempenham uma tarefa para o bem de toda a Igreja e, por conseguinte, também de todo o mundo.” 26 Bernardo aplicou essas palavras do Pseudo-Rufino: “O gênero humano vive graças a poucos; se estes não existissem, o mundo pereceria” 27. “Os contemplativos (contemplantes) devem tornar-se trabalhadores agrícolas (laborantes)” 28.

Bento XVI continua explicando que a esperança não é experimentada fora do trabalho a ser feito, mas, ao contrário, é a esperança que dinamiza o ardor e a motivação para esse trabalho: “A nobreza do trabalho, que o cristianismo herdou do judaísmo, estava patente nas regras monásticas de Agostinho e de Bento. É verdade que Bernardo diz explicitamente que nem mesmo o mosteiro pode restabelecer o Paraíso; mas defende que aquele deve, como lugar de amanho manual e espiritual, preparar o novo Paraíso. O terreno bravio de um bosque torna-se fértil, precisamente quando, ao mesmo tempo, se deitam abaixo as árvores da soberba, se extirpa o que de bravio cresce nas almas.” 29

Quando a verdade do “além” é dissipada, é uma questão de estabelecer a verdade do “aquém”

história dos tempos modernos, a partir do século XVI: como a mensagem de Jesus pode ter permanecido estritamente individualista? E, como chegamos a interpretar a “salvação da alma” como uma fuga da responsabilidade e a considerar o programa do cristianismo, como uma busca egoísta pela salvação que se recusou a servir aos outros? Bento XVI vê o “ponto de virada de uma era” em “uma visão programática que determinou o caminho
dos tempos modernos” e que “também influencia a crise atual da fé e da esperança cristãs” 30. “Assim também a esperança, segundo Bacon, ganha uma nova forma. Agora chama-se fé no progresso.” 31

Assim, para Bento XVI, a partir de Francis Bacon, duas categorias sempre estarão mais no centro da ideia de progresso: “razão e liberdade”: “Aquele é sobretudo um progresso no crescente domínio da razão, sendo esta considerada obviamente um poder do bem e para o bem. O progresso é a superação de todas as dependências; é avanço para a liberdade perfeita.” 32 “Em ambos os conceitos – liberdade e razão – está presente um aspecto político. O reino da razão, de fato, é aguardado como a nova condição da humanidade feita totalmente livre”. 33

A partir do artigo 19, o Papa apresenta como nos séculos XVIII e XIX, com a Revolução Francesa, a Europa do Iluminismo e os escritos de Emmanuel Kant, se desenvolveram interpretações confusas entre “o Reino de Deus”, que recebeu uma nova definição “e também assumiu uma nova presença; há, por assim dizer, uma nova ‘expectativa imediata’: o Reino de Deus chega onde a fé da Igreja é superada e substituída pela fé religiosa, ou seja, pela simples fé racional”. 34 “O século XIX não perdeu a sua fé no progresso como nova forma da esperança humana e continuou a considerar razão e liberdade como as estrelas-guia a seguir no caminho da esperança.” 35

Em seguida, comenta o Papa: “Depois da revolução burguesa de 1789, tinha chegado a hora para uma nova revolução: a proletária. (…) aquilo que Kant tinha qualificado como o ‘reino de Deus’. Tendo-se diluída a verdade do além, tratar-seia agora de estabelecer a verdade de aquém.” 36 Para Bento XVI, o “verdadeiro erro” de Marx foi o “materialismo”: “O homem não é só o produto de condições econômicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições econômicas favoráveis.” 37 Para Bento XVI, precisamos: “Antes de mais, devemos perguntar-nos: o que é que significa verdadeiramente ‘progresso’; o que é que ele promete e o que é que não promete? Se o progresso, para ser digno deste nome necessita do crescimento moral da humanidade, então a razão do poder e do fazer deve de igual modo urgentemente ser integrada mediante a abertura da razão às forças salvíficas da fé, ao discernimento entre o bem e o mal.” 38 “Digamos isto de uma forma mais simples: o homem tem necessidade de Deus; de contrário, fica privado de esperança.” 39 Bento XVI observa que “verifica-se claramente
uma continuidade do progresso rumo a um domínio sempre maior da natureza. Mas, no âmbito da consciência ética e da decisão moral, não há tal possibilidade de adição, simplesmente porque a liberdade do homem é sempre nova” 40. “Por outras palavras: as boas estruturas ajudam, mas por si só não bastam. O homem não poderá jamais ser redimido simplesmente a partir de fora.” 41 Para o Papa, os dois grandes projetos históricos da
era moderna, o liberalismo e o socialismo, deixaram um fracasso total e um mundo dilacerado pelo sofrimento e pela injustiça.

Não é a ciência que redime o homem, o homem é redimido pelo amor

Quando alguém experimenta na sua vida um grande amor, conhece um momento de ‘redenção’ que dá um sentido novo à sua vida.” 42 “Se existe este amor absoluto com a sua certeza absoluta, então – e somente então – o homem está ‘redimido’, independentemente do que lhe possa acontecer naquela circunstância. É isto o que se entende, quando afirmamos: Jesus Cristo ‘redimiu-nos’.” 43 “A verdadeira e grande esperança do homem, que resiste apesar de todas as desilusões, só pode ser Deus – o Deus que nos amou, e ama ainda agora ‘até ao fim’, ‘até à plena consumação’ (cf. Jo 13, 1 e 19, 30).” 44b A encíclica continua centrando-se em Jesus que nos explicou o que significa a “vida”: “‘A vida eterna consiste nisto: Que Te conheçam a Ti, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a Quem enviaste’.” (Jo 17, 3) “A vida, no verdadeiro sentido, não a possui cada um em si próprio sozinho, nem mesmo por si só: aquela é uma relação. E a vida na sua totalidade é relação com Aquele que é a fonte da vida. Se estivermos em relação com Aquele que não morre, que é a própria Vida e o próprio Amor, então estamos na vida. Então ‘vivemos’.” 45

Três lugares para aprendizado e exercício da esperança:

a) A oração como escola da esperança

Quando já ninguém me escuta, Deus ainda meouve.” 46 Santo Agostinho esclarece: “Assim procede Deus: diferindo a Sua promessa, faz aumentar o desejo; e com o desejo, dilata a alma, tornando-a mais apta a receber os seus dons” 47. Bento XVI acrescenta a dimensão purificadora da oração: “Deve purificar os seus desejos e as suas esperanças. Deve livrar-se das mentiras secretas com que se engana a si próprio: Deus perscruta-as, e o contato com Deus obriga o homem a reconhecê-las também.” 48 “Na oração, deve haver sempre este entrelaçamento de oração pública e oração pessoal. Assim podemos falar a Deus, assim Deus fala a nós. Deste modo, realizam-se em nós as purificações, mediante as quais nos tornamos capazes de Deus e idôneos ao serviço dos homens. Assim tornamo-nos capazes da grande esperança e ministros da esperança para os outros: a esperança em sentido cristão é sempre esperança também para os outros.” 49

b) Agir e sofrer como lugares de aprendizagem da esperança

É importante saber: eu posso sempre continuar a esperar, ainda que pela minha vida ou pelo momento histórico que estou a viver aparentemente não tenha mais qualquer motivo para esperar. Só a grande esperança-certeza de que, não obstante todos os fracassos, a minha vida pessoal e a história no seu conjunto estão conservadas no poder indestrutível do Amor e, graças a isso e por isso, possuem sentido e importância, só uma tal esperança pode, naquele caso, dar ainda a coragem de agir e de continuar.” 50 “Certamente é preciso fazer tudo o possível para diminuir o sofrimento: impedir, na medida do possível, o sofrimento dos inocentes; amenizar as dores; ajudar a superar os sofrimentos psíquicos.” 51 “Não é o evitar o sofrimento, a fuga diante da dor, que cura o homem, mas a capacidade de aceitar a tribulação e nela amadurecer, de encontrar o seu sentido através da união com Cristo, que sofreu com infinito amor.” 52 “Uma sociedade que não consegue aceitar os que sofrem e não é capaz de contribuir, mediante a com-paixão, para fazer com que o sofrimento seja compartilhado e assumido mesmo interiormente é uma sociedade cruel e desumana.” 53 “A verdade e a justiça devem estar acima da minha comodidade e incolumidade física, senão a minha própria vida torna-se uma mentira. E, por fim, também o ‘sim’ ao amor é fonte de sofrimento, porque o amor exige sempre expropriações do meu eu, nas quais me deixo podar e ferir.” 54 “Sofrer com o outro, pelos outros; sofrer por amor da verdade e da justiça; sofrer por causa do amor.” 55 “Bernardo de Claraval cunhou esta frase maravilhosa: Deus não pode padecer, mas pode-se compadecer.” 56

c) O Juízo como lugar de aprendizagem e de exercício da esperança

O grande Credo da Igreja, conclui com as palavras: “de novo há-de vir em Sua glória, para julgar os vivos e os mortos” “Já desde os primeiros tempos, a perspectiva do Juízo influenciou os cristãos até na sua própria vida quotidiana enquanto critério segundo o qual ordenar a vida presente, enquanto apelo à sua consciência e, ao mesmo tempo, enquanto esperança na justiça de Deus.” 57 Sobre os tímpanos das igrejas românicas e góticas: “Na configuração dos edifícios sacros cristãos, que queriam tornar visível a vastidão histórica e cósmica da fé em Cristo, tornou-se habitual representar, no lado oriental, o Senhor que volta como rei – a imagem da esperança –, e no lado ocidental, o Juízo final como imagem da responsabilidade pela nossa vida.” 58

A fé no Juízo Final é uma esperança

Todos aqueles e aquelas que sofreram e estão sofrendo injustiças nesta vida, e sobre os quais nenhum tribunal humano se pronunciou – ou se pronunciou injustamente – serão finalmente justificados! E aqueles que cometeram alguma injustiça, sem nunca terem sido julgados, serão finalmente julgados pela justiça divina. É por isso que, tanto para alguns quanto para outros, essa Justiça do Julgamento Final é aguardada e esperada como sua completa libertação. “Sim, existe a ressurreição da carne. Existe uma justiça. Existe a ‘revogação’ do sofrimento passado, a reparação que restabelece o direito. Por isso, a fé no Juízo final é, primariamente, e sobretudo esperança – aquela esperança, cuja necessidade se tornou evidente justamente nas convulsões dos últimos séculos. Estou convencido de que a questão da justiça constitui o argumento essencial – em todo o caso o argumento mais forte – a favor da fé na vida eterna.” 59

O Juízo Final: uma imagem de esperança e um chamado à responsabilidade

A imagem do Juízo final não é primariamente uma imagem aterradora, mas de esperança; a nosso ver, talvez mesmo a imagem decisiva da esperança. Mas não é porventura também uma imagem assustadora? Eu diria: é uma imagem que apela à responsabilidade.” 60 “Mas, na sua justiça, Ele é conjuntamente também graça. Isto podemos sabê-lo fixando o olhar em Cristo crucificado e ressuscitado. Ambas – justiça e graça – devem ser vistas na sua justa ligação interior. A graça não exclui a justiça. Não muda a injustiça em direito. Não é uma esponja que apaga tudo, de modo que tudo quanto se fez na terra termine por ter o mesmo valor.” 61 “Jesus, na parábola do rico epulão e do pobre Lázaro (cf. Lc 16, 19-31), Jesus, nesta parábola, não fala do destino definitivo depois do Juízo universal, mas retoma a concepção do judaísmo antigo de uma condição intermédia entre morte e ressurreição, um estado em que falta ainda a última sentença.” 62

Com relação à fé bíblica de Israel na vida após a morte, o Cardeal R. Cantalamessa destaca: “A crença de Israel não diferia daquela dos povos vizinhos, especialmente daqueles da Mesopotâmia. A morte põe fim à vida para sempre; todos terminam, bons e maus, em uma espécie de lúgubre ‘fossa comum’ que, em outros lugares, chama-se Arallu e, na Bíblia, o Sheol. Não diversa é a crença dominante no mundo greco-romano contemporâneo do Novo Testamento. Ele chama aquele triste lugar de sombras Infernos, ou Hades.” 63

Purificação, cura, purgatório… em vista da comunhão com Deus

O “eschaton”, do grego “eskata”, que significa “o fim dos tempos”. Para nós, cristãos, esta realidade é uma realidade de fé, que designa a vitória definitiva de Cristo sobre a morte e que acompanhará o fim e o cumprimento da História. Essa dimensão escatológica, assim como a do Reino dos Céus também atua como um agente purificador e santificador. “Não falta a noção de que, neste estado, sejam possíveis também purificações e curas, que tornam a alma madura para a comunhão com Deus.” 64 “A Igreja primitiva assumiu tais ideias, a partir das quais, se desenvolveu aos poucos na Igreja ocidental a doutrina do purgatório.” 65 “Com a morte, a opção de vida feita pelo homem torna-se definitiva; esta sua vida está diante do Juiz. A sua opção, que tomou forma ao longo de toda a vida, pode ter caracteres diversos.” 66

Salvos, mas como através do fogo

A encíclica cita Paulo: “Se alguém sobre esse fundamento constrói com ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, a obra de cada um será posta em evidência. O Dia torná-la-á conhecida, pois Ele se manifestará pelo fogo e o fogo provará o que vale a obra de cada um. Se a obra construída sobre o fundamento subsistir, o operário receberá uma recompensa. Aquele, porém, cuja obra for queimada perderá a recompensa. Ele mesmo, entretanto, será salvo, mas como que através do fogo.” (1Cor 3, 12-15) “Neste texto, para alcançar a salvação, é preciso atravessar pessoalmente o ‘fogo’ para se tornar definitivamente capaz de Deus e poder sentar-se à mesa do banquete nupcial eterno.” 67

Embora essas declarações possam parecer opressivas, em sua encíclica o Papa enfatiza a finalidade dessa purificação, que é muito libertadora e salvadora. É precisamente a presença da esperança que está no centro dela: “Alguns teólogos recentes são de parecer que o fogo que simultaneamente queima e salva é o próprio Cristo, o Juiz e Salvador. O encontro com Ele é o ato decisivo do Juízo. Ante o seu olhar, funde-se toda a falsidade. É o encontro com Ele que, queimando-nos, nos transforma e liberta para nos tornar verdadeiramente nós mesmos.” 68 “O seu olhar, o toque do seu coração cura-nos através de uma transformação certamente dolorosa ‘como pelo fogo’. Contudo, é uma dor feliz, em que o poder santo do Seu amor nos penetra como chama, consentindonos no final sermos totalmente nós mesmos e, por isso mesmo totalmente de Deus. A dor do amor torna-se a nossa salvação e a nossa alegria.” 69

O Juízo de Deus é esperança, porque é justiça e também graça

Se fosse somente graça que torna irrelevante tudo oque é terreno (…). E, se fosse pura justiça, o Juízo e definitivo poderia ser para todos nós só motivo de temor. A encarnação de Deus em Cristo uniu de tal modo um à outra, o juízo à graça, que a justiça ficou estabelecida com firmeza: todos nós cuidamos da nossa salvação ‘com temor e tremor’ (Fl 2, 12). A graça permite-nos a todos nós esperar e caminhar cheios de confiança ao encontro do Juiz que conhecemos como nosso ‘advogado’, parakletos (cf. 1 Jo 2, 1).” 70 “Há ainda um motivo que deve ser mencionado aqui, porque é importante para a prática da esperança cristã. No antigo judaísmo, existe também a ideia de que se possa ajudar, através da oração, os defuntos no seu estado intermédio (cf. por exemplo, 2Mac 12, 38-45: obra do I século a.C.).” 71 “Às almas dos defuntos, porém, pode ser dado ‘alívio e refrigério’ mediante a Eucaristia, a oração e a esmola.” 72

O nosso coração também tem uma “Porta Formosa”, a Porta da Esperança 

O Cardeal Raniero Cantalamessa cita essa comparação, baseada na “Porta Formosa” do Templo de Jerusalém (cf. At 3, 2). O cardeal considera que as portas que temos de abrir em nossos corações são as das três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. “O templo de Deus, que é o nosso coração, também tem uma porta ‘formosa’, e é a porta da esperança.” 73

Ninguém vive só. Ninguém peca sozinho. Ninguém se salva sozinho.

Aqui levantar-se-ia uma nova questão: se o ‘purgatório’ consiste simplesmente em ser purificados pelo fogo no encontro com o Senhor, Juiz e Salvador, como pode então intervir uma terceira pessoa ainda que particularmente ligada à outra? Ao fazermos esta pergunta, deveremos dar-nos conta de que nenhum homem é uma mônada fechada em si mesma. As nossas vidas estão em profunda comunhão entre si; através de numerosas interações, estão concatenadas uma com a outra. Ninguém vive só. Ninguém peca sozinho. Ninguém se salva sozinho. Continuamente entra na minha existência a vida dos outros: naquilo que penso, digo, faço e realizo. E, vice-versa, a minha vida entra na dos outros: tanto para o mal como para o bem. Deste modo, a minha intercessão pelo outro não é de forma alguma uma coisa que lhe é estranha, uma coisa exterior, nem mesmo após a morte. Na trama do ser, o meu agradecimento a ele, a minha oração por ele pode significar uma pequena etapa da sua purificação. E, para isso, não é preciso converter o tempo terreno no tempo de Deus: na comunhão das almas fica superado o simples tempo terreno. Nunca é tarde demais para tocar o coração do outro, nem é jamais inútil.” 74

Maria, estrela da esperança

Bento XVI conclui sua encíclica com este hino antigo, entre os séculos VIII e IX: “A Igreja saúda Maria, a Mãe de Deus, como ‘estrela do mar’: Ave maris stella. A vida humana é um caminho. Rumo a qual meta? Como achamos o itinerário a seguir? A vida é como uma viagem no mar da história, com frequência enevoada e tempestuosa, uma viagem na qual perscrutamos os astros que nos indicam a rota. As verdadeiras estrelas da nossa vida são as pessoas que souberam viver com retidão. Jesus Cristo é a luz por antonomásia, o sol erguido sobre todas as trevas da história. Mas, para chegar até Ele precisamos também de luzes vizinhas, de pessoas que dão luz recebida da luz Dele e oferecem, assim, orientação para a nossa travessia. E quem mais do que Maria poderia ser para nós estrela de esperança? Ela que, pelo seu ‘sim’, abriu ao próprio Deus a porta do nosso mundo; Ela que Se tornou a Arca da Aliança viva.” 75

A encíclica termina com uma longa oração a Maria “Estrela do Mar”, que é como uma anamnese inspirada das Escrituras. Para encerrar esse percurso jubilar sobre a Esperança, deixemos que o Papa Francisco dê o toque final, com a imagem da âncora da esperança, às vezes representada com o coração e a cruz. A âncora simboliza a esperança, enquanto o coração representa a caridade e a cruz representa a fé. Nas catacumbas romanas, a âncora era frequentemente representada “de cabeça para baixo” para significar que ela estava “ancorada” não no fundo do mar, mas nos céus:

A imagem da âncora é sugestiva para compreender a estabilidade e a segurança que possuímos no meio das águas agitadas da vida, se nos confiarmos ao Senhor Jesus. As tempestades nunca poderão prevalecer, porque estamos ancorados na esperança da graça, capaz de nos fazer viver em Cristo, superando o pecado, o medo e a morte. Esta esperança, muito maior do que as satisfações quotidianas e as melhorias nas condições de vida, transporta-nos para além das provações e exorta-nos a caminhar sem perder de vista a grandeza da meta a que somos chamados: o Céu.” 76

 

 

Fonte:
1 Joseph Ratzinger, Introdução ao Espírito da Liturgia, Edições Loyola, São Paulo, 2013, p. 101
2 Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 1.
3 Cf. Haïm Korsia, Il faut se faire violence pour oser espérer (Precisamos fazer violência para ousar ter esperança), Journal LaCroix, 21 de maio de 2024.
4 Cf. Papa Francisco, Bula de Proclamação do Ano Jubilar, Spes non Confundit, n. 25.
5 Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 3.
6 Ibidem, n. 4.
7 Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 6.
8 Ibidem, n. 7. 9 Ibidem
10 Cf. Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 7.
11 Ibidem, n. 8. 12 Ibidem, n. 9.
13 Cf. Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 10.
14 Ibidem, n. 12.
15 Ibidem, n. 11.
16 Santo Agostinho, Carta 130, a Proba, 13, 24; citada em Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 14.
17 Santo Agostinho, Carta 130, a Proba, 14, 25 – 15,28; citada em apa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 11.
18 Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 12.
19 Ibidem. 20 Ibidem 21 Ibidem, n. 13.
22 Henry De Lubac, Catholicisme. Aspects sociaux du dogme (Catolicismo. Aspectos sociais do dogma), Paris 1983, p. VII; citado em Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 13.
23 Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 14.
24 Ibidem.
25 Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 15.
26 Ibidem.
27 Pseudo-Rufino, Sententiae III, 118; citado em Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 15.
28 Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 15.
29 Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 15.
30 Ibidem, n. 17.
31 Ibidem.
32 Ibidem, n. 18.
33 Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 18.
34 Ibidem, n. 19.
35 Ibidem, n. 20.
36 Ibidem.
37 Ibidem, n. 21.
38 Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 22-23.
39 Ibidem, n. 23.
40 Ibidem, n. 24.
41 Ibidem, n. 25.
42 Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 26.
43 Ibidem.
44 Ibidem, n. 27.
45 Ibidem.
46 Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 32.
47 Ibidem, n. 33.
48 Ibidem.
49 Ibidem, n. 34.
50 Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 35.
51 Ibidem, n. 36.
52 Ibidem, n. 3 7 .
53 Ibidem n. 38 .
54 Ibidem.
55 Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 39.
56 Ibidem.
57 Ibidem, n. 41.
58 Ibidem.
59 Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 43.
60 Ibidem, n. 44.
61 Ibidem.
62 Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 44.
63 Cardeal Raniero Cantalamessa, Segunda Pregação do Advento, 9 de dezembro de 2022.
64 Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 45.
65 Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 45.
66 Ibidem. 67 Ibidem, n. 46.
68 Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 47.
69 Ibidem.
70 Ibidem.
71 Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 48.
72 Ibidem.
73 Cardeal Raniero Cantalamessa, Segunda Pregação do Advento, 9 de dezembro de 2022.
74 Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 48.
75 Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30 de novembro de 2007, n. 49.
76 Papa Francisco, Bula de Proclamação do Ano Jubilar, Spes non Confundit, n. 25.

 

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